Vida de Cão

Conto por Tiago Russel
6 de maio de 2005

17_russel_i3sdx5yy

Era um vira-latas cheio de estilo. Em seu sangue corria forte a linhagem mais nobre dos legítimos Guaipecas de rua. Gostava de passear, correr e, claro, se coçar. Guaipeca que é Guaipeca carrega em seu pêlo a mais alta corte de pulgas existente na região.

Não era grande nem pequeno. Nem sério, nem brincalhão. Mas não resistia quando o tema era aventura. Uma novidade. Um desafio. Era louco por estas coisas. Curtia dar uma de cão de guarda de vez em quando. Passava tardes protegendo as velhinhas na rua. Perambulava pelas sarjetas espreitando qualquer perigo, focado no objetivo de não deixar nada nem ninguém atrapalhar seu protegido. E fazia isso com autoridade. Não largava aquele osso por nada… ou quase nada.

Tudo dependia do seu olfato apurado. Principalmente para aquele que era o seu esporte preferido… cheirar as cadelinhas. Em segundos esquecia que era um cão de guarda e voltava à sua realidade de vira-latas. E não deixava passar nenhuma.

Tinha uma jinga toda própria, um pêlo de arame irresistível e um sei-lá-o-quê que deixava elas de quatro. Não importava a raça. Mas preferia as Lulus e Poodles, sempre cheirosas, mimadas e bem educadas. As encarava como um desafio de vagabundo. As arrancava de seus pedestais e roubava suas virtudes na fuça de seus donos. Mas não negava também uma atração por cachorras fortes, decididas e com atitude. Ah, estas o tiravam do sério. E despertavam nele um medo de que não conseguia fugir.

Ou melhor, só fugia. Fazia o que tinha que fazer e simplesmente desaparecia entre os lixos da cidade. Fugia do compromisso como um gato fugia dele. Com esta justificativa, driblava os ataques da sua consciência no bar mais próximo. E assim ia colecionando o ódio canino, e se bobear até de um ou outro molar mais justiceiro.

Vivia uma típica vida de cão. Aprontava e não sofria. Ia e vinha na hora que queria. Não abanava o rabo pra qualquer um, e cheirava o de todas. Se houvesse um feriado internacional do cão com C maiúsculo, seria o dia dele. Até que o de sempre aconteceu.

Enquanto tentava roubar as sobras do açougue mais próximo da sua casinha, vê perplexo um caminhão de mudança invadir o seu quintal. A casa, há anos desabitada, ganhava novos donos. E ele provavelmente também.

Roupinha de inverno, hora pra passear, ração com gosto de terra, criança puxando seu rabo. Tudo o de ruim passava por sua cabeça enquanto rosnava raivosamente para o caminhão de mudança. Até que ela apareceu, saltitando entre as caixas de papelão. Uma linda cadelinha vira-lata, novinha e cheia de uma inocência sapeca que deixou até suas pulgas perplexas. Suas pernas tremeram. Ele ficou bobo. Rolava pelo chão e pulava nas patas traseiras. Chamou a atenção de todos, e fez questão de ser simpático. Experimentava algo que já fazia tempo que não sentia. E gostava disso. Do arrepio que corria pelas suas costas e, automaticamente, colocava seu rabo entre as pernas.

Acabou ganhando um amo e uma dona. Estava apaixonado e feliz. Trocou a vida de cão pela de cachorro. Sem olhar pro lado, sem passear sem rumo, sem dar bola para as cadelinhas da rua. Seu único incomodo? A maldita coleira.


Titulo: Vida de Cão

Autor: Tiago Russel

Gênero: Conto

Data de publicação: 6 de maio de 2005

Resumo:

De cafajeste a melhor amigo do homem.

,

1 Comentário

  1. João Carlos disse:

    Muito familiar o conto… só estou aguardando o tal caminhão de mudanças.

Deixe seu Comentário

Spam Protection by WP-SpamFree

Quem é Tiago Russel?

Escrevo como válvula de escape. Antes que a vida me escape.

Bad Behavior has blocked 20 access attempts in the last 7 days.