Conto por Mário Neto
24 de setembro de 2003
No salão de beleza, com a amiga.
- Ele vira e dorme?
- Ele vira e dorme.
- Não dá nem um beijo?
- Não, nada. Nem me olha na cara…
- Poxa.
- É um safado.
- Sempre foi assim?
- Foi, o duro é que sempre foi.
- Mas ele diz que te ama, né?
- Xi! Piorou.
- Ah! Ele não diz, mas fica subentendido. Não fica?
- Fica. Fica subentendido que ele me usa.
- Não pode ser. Não o Júlio.
- Ele sim, o Júlio. Ele vira e dorme. Roncando.
- Mas eu sempre achei que o Júlio fosse romântico. Vocês sempre me pareceram tão sintonizados.
- A única coisa que a gente sintoniza junto é a novela. Ele adora.
- Não é possível. Isso é frustrante.
- Por que diz isso?
- Meu marido também faz a mesma coisa. Vira e dorme. Mas eu achei que algum homem agisse diferente. Como o Júlio.
- Homem é tudo igual, não tem jeito.
- Não pode ser.
- É tudo igual. Ligam no mesmo botão, depois desligam automaticamente.
- Credo!
Dias depois, com a mãe.
- E o papai?
- Olha, minha filha, seu pai vira e dorme.
- Ai, mamãe. Até o papai?
- Sempre foi assim. E quando ele dorme, não há quem o levante depois.
- Mas ele diz que te ama, né?
- Haha, seu pai não diz isso há séculos. Sempre foi rabugento.
- Credo, mamãe. Não fala assim do papai.
- É verdade, sim. Ninguém quer ouvir as coisas que eu digo, só dão ouvidos a ele. Ele é rabugento. A última vez que ele disse que me amava eu ainda estava solteira.
- E como é que a senhora agüenta?
- Agüentando. Vai me dizer que com o Oto é diferente?
- Por isso mesmo, mamãe. Ele é igualzinho. Vira e dorme. E ronca.
- Pois então, minha filha? O que você estava esperando?
- Que ele ficasse comigo, né mãe! Que me olhasse nos olhos e que dissesse que me ama.
- Ele é um homem, filha. Homem só diz isso com interesse.
- Credo! Que visão mais pessimista, mais submissa, mamãe?
- Ai, minha filha, só você mesmo com suas teorias.
- Será que não tem um homem no mundo que não faça isso? Que não vire e durma? Será?
- Se tiver não deve gostar de mulher.
- Credo, mamãe!
Meses depois, com o marido.
- Oto, você me acha feia?
- Que papo é esse?
- Me acha, né?
- Não, não acho.
- Então não sou sexy.
- Mas que…
- Responde!
- Você é sexy, muito sexy. Mas onde você está querendo chegar?
- Então você não gosta do meu beijo.
- O que está acontecendo aqui?
- Responde, por favor, é importante.
- Gosto do seu beijo. Que crise é essa…
- Então por que você vira e dorme?
- O que?
- É isso mesmo que você ouviu. Por que você vira e dorme?
- Mas eu não viro e durmo, eu…
- Vira e dorme, sim. E ronca.
- De onde você anda tirando estas histórias?
- De anos, de anos. Poxa, por que você tem que virar e dormir? Não pode ao menos ficar acordadinho comigo?
- Mas meu bem, o corpo…
- Você me usa, né? Machista! Você só quer o meu corpo…
- Mas nós casamos, temos filhos, uma casa…
- Mas continua querendo só o meu corpo. E depois… depois… nem ele você vai querer mais.
- Nunca! Nunca! Você é tudo pra mim, meu amor…
- Meu amor, é?
- É. E não tem mulher como você, inteligente, bonita, carinhosa.
- Mas…
- E eu não quero outra, quero você… Só você, mais ninguém…
- Ai, Oto, é mesmo?
- É…
- Nossa, você está me deixando…
- É, estou?
- Está… hum…
- Quer brincar com o general?
- Ai, Oto! Não gosto que fale assim…
- Tá bom. Quer brincar com seu Oto…
- Eu quero…
Minutos depois.
- Ah! Ai meu Deus, Oto! Quanto tempo a gente não faz assim, hein?
- …
- Oto?
- … …
- Oto? Otinho? Acorda Oto! Olha pra mim!
- Zzzzz…
Mário de Souza Neto gosta de dormir com a janela aberta e tem sono pesado. Agora, se vira e dorme…
Titulo: Vira e dorme
Autor: Mário Neto
Gênero: Conto
Data de publicação: 24 de setembro de 2003
Resumo: O que acontece depois que…
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Putz, Mário!Genial! Reclamações comuns no universo feminino não solteiro (pelo menos, eu acho…)