55 dias de miojo

Crônica por Thiago Mom
17 de maio de 2005

Junho está chegando e, com ele, mais um pretexto de Direito em Gramado. Há quem chame de congresso, mas são pessoas ingênuas quanto ao espírito da coisa. Todo congresso, simpósio, fórum, encontro e o escambal que envolva estudantes é na verdade um nome respeitável pros melhores bunda-lelês do país. Falar em bunda-lelê, dizem que a novidade pra esse ano em Gramado é, na abertura, a troca do Hino Nacional por “Festa no apê”, cantada pelo próprio Latino, que deve surgir do fundo do anfiteatro e pegar um dos microfones da mesa.

Esses pretextos nacionais ou internacionais de Direito realmente são os melhores. São os grandes epicentros de baladeiros do sul do Brasil. Já ouvi boatos difamatórios de que, nas palestras, até a décima fila todo mundo presta atenção, havendo mesmo quem chegue a anotar alguma coisa, mas não sei. Nunca entrei. Só o que posso garantir é que, ali pelas três da tarde, oradores de renome concorrem com umas das bolachas mais viciantes e um dos cafezinhos mais bem passados do Rio Grande do Sul. Isso pra não dizer que dali, do coffee break, dá conversar com os amigos florianopolitanos que vão chegando ? fisioterapeutas, jornalistas, engenheiros, oceanógrafos e futuros juristas, inclusive. O clima de balada é tanto que amigo meu chegou uma vez pro segurança, na porta do anfiteatro, e perguntou:

? Quanto que é pra entrar? 30 reais com consumação?

Mais tarde, todo mundo caminha pelas ruas aprazíveis do centro de Gramado, curtindo o frio e a arquitetura daquelas casas aparentemente feitas de Lego, tão irritantemente perfeitas. Pausa pra tomar um chocolate quente. A horda de Florianópolis é mesmo tanta que, se você ficar um mês em pé no posto da Lagoa da Conceição, não vê tanto conhecido. Aquela menina que estava namorando e nunca mais saiu. Aquela outra que está namorando e nunca deixou de sair. Aquele maluco do terceirão que ficava passando encomendas canábicas pela divisória pra outra sala. Enfim. Toda essa galera se junta, lá pela meia-noite, a outras centenas de pessoas no Bill Bar, afetivamente apelidado de Bim Bar por alguns freqüentadores. Um bar-boate cheio de ambientes e até mesmo umas pistas de boliche.

Sem trocadilhos com strikes ou pinos pra derrubar, mas amigas minhas garantem que lá é mesmo a balada ideal pra uma balada subseqüente. De madrugada, teorizam, a temperatura varia de zero a três graus, o que estimula cachaças pesadas. Além disso, quase todo mundo está longe de casa, portanto com a memória bastante propensa a eventualmente esquecer o que for preciso. Essas coisas todas. Etc.

Depois da última ida ao Bim Bar, fui parar numa pousada que não era a minha, o que só percebi quando enxerguei estrelas, planetas e a lua em decalques amarelo-fosforescentes no teto do quarto. No meio daquele contexto de viagem, geada, risadas entre amigos e boas bebidas, como se tudo isso já não fizesse parte do mural de melhores momentos da sua vida, você ainda acaba a noite acompanhado e reencontra o céu da sua infância. Nem que tenham que vender o DVD ou passar 55 dias a miojo com requeijão, por favor não deixem de aparecer no pretexto jurídico e conhecer Gramado no mês que vem.


Titulo: 55 dias de miojo

Autor: Thiago Mom

Gênero: Crônica

Data de publicação: 17 de maio de 2005

Resumo:

Há quem chame o pretexto de Direito em Gramado de congresso, mas são pessoas ingênuas quanto ao espírito da coisa

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2 Comentários

  1. Marianna Duarte de Aragão disse:

    Adorei…sera que me identifico?? haha
    Beijos querido

  2. Alexandre Piccolo disse:

    O tal pretexto parece mesmo direito, bem animado. Achei legal o possessivo depois do substantivo (“amigo meu”, “amigas minhas”) que, além de lembrar a oralidade, parece mitigar a relação de posse e de amizade.

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