Crônica por Paulo Rebelo
9 de outubro de 2003
Esta bíblia foi escrita após profundas reflexões zen-bundistas durante o retiro compulsório do Super Ranzinza em sua terra natal, Ranzincity. Para saber como foi o retiro, clique [aqui ] para ler a crônica anterior.
Para a maioria das pessoas, o solteirismo convicto não é uma opção; é um resultado. E um resultado ruim, quase como um defeito. Há controvérsias, mas esse tipo de mentalidade parece ter muito mais força entre as mulheres.
Existem vários tipos de solteiros. Os topa-tudo, os recatados, os kome-ketos, os fanfarrões, os blasés, os garanhões, os seletivos etc. E existem também os solteiros apostólos: aqueles que pregam o solteirismo como uma filosofia de vida. Não importa se temporária ou perene, desde que seja uma filosofia de verdade enquanto dure. Sem duplo sentido.
O solteiro-apóstolo acredita na divindade chamada "esposa e filhos" e, exatamente por acreditar que a divindade "um dia chegará" (ou voltará), ele procura pregar a autonomia relacional enquanto ainda dá tempo.
A autonomia relacional é a base da doutrina Tico-Tico no Fubá, cujo evangelho é simples e objetivo: se a supra-mencionada divindade existe mesmo, então a solução é encarar a doutrina como um estado de espírito e nunca render-se às tentações de se casar só porque todos os amigos estão casando ou porque a idade se aproxima…
No entanto, o apostolado da Tico-Tico no Fubá não é para qualquer um. Poucos conseguem seguir a rígida disciplina apostólica fubázeira.
Muitos solteiros, provavelmente controlados pela égide do mal personificada sob o manto do "namoro-coleira" ou "esquema-possessivo" ou "ficante-psicótica", não são aceitos como apóstolos por causa de uma conduta incompatível com a doutrina: quando iniciam um novo relacionamento, se voltam contra os antigos irmãos e passam a pregar a palavra do mal: de que solteiro é causa, e não condição.
O resultado é conhecido: abandonam os amigos, as farras com os colegas da velha-guarda, deixam de ir para happy hours do trabalho, sempre saem mais cedo dos coquetéis e, nas situações mais críticas, transformam-se em seres sóbrios -- contrariando o primeiro mandamento da doutrina, que é nunca cair na tentação da sobriedade etílica.
Em casos assim, nem sempre há salvação. O evangelho é forte, mas não faz milagre; perde a força sobre ex-apóstolos agora sóbrios. Algumas vezes, é preciso apelar ao exorcismo.
Evidente que, dentro do apostolado do Tico-Tico no Fubá, existem variadas facções de seguidores: há aqueles bem desenrolados com as mulheres, há aqueles que sabem aproveitar bem o solteirismo, há aqueles que escolhem o caminho virtuoso de estar sempre namorando alguém (porém fiel aos mandamentos da doutrina), há aqueles que optam por "ficadas" e assim por diante.
E há também aqueles apóstolos super enrolados com as beatas (mulheres), que sempre se dão mal e só agarram a garrafa de cerveja -- situação que no vocabulário do evangelho Tico-Tico no Fubá, foi batizada de "sacrossanto fumo".
Preocupado com seus similares sacrossanto fumados, o Super Ranzinza (temporariamente Frei Ranzinza) fundou a mais nova seita do Brasil, a SEITA CHEQUE, e desenvolveu a Bíblia do Solteiro Apostólico, elaborada a partir das experiências e causos dele mesmo, o bula-bula do sacrossanto fumo, o zé do caixão das beatas, o cardeal do que não se deve fazer junto de uma mulé.
Para entender a bíblia, basta ler todos os ensinamentos de Frei Ranzinza e nunca tentar fazer igual. Assim, você se tornará um apóstolo de primeira e, diferentemente de Frei Ranzinza, as santas não vão correr de medo.
La garantya soi yo.
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Titulo: A BÍBLIA DO SOLTEIRO APOSTÓLICO
Autor: Paulo Rebelo
Gênero: Crônica
Data de publicação: 9 de outubro de 2003
Resumo: PARTE I - A DOUTRINA TICO-TICO NO FUBÁ
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Só podia ser um cara gordo e careca….