Crônica por Leonardo Augusto
4 de dezembro de 2005
Ainda sobre a estupidez.
Confesso ficar emocionado ao ver Bush e Lula lado a lado. Eles parecem ser tão íntimos, e nenhum deles sabe falar nem inglês, nem português. Como pode que metade de todo um continente esteja na mão de dois tapados daquele calibre? Um é um típico filho da oligarquia petroleira texana, estúpido, ex-alcoólatra convertido ao fundamentalismo de direita, nada a ver com religião (como ele pode ser cristão fanático e aliado de Israel?) Outro, um ex-metalúrgico que liderou o movimento operário, virando mascote do partido que criou, convertido depois de eleito ao modelo brasileiro de político: demagogo, populista e falastrão.
Pois cada um deles vive feliz em seu mundo de fantasia. Um acredita na investidura de seu povo como polícia do mundo, acredita em sua própria hipocrisia moralista, na supremacia da civilização ocidental, capitalista e cristã. Outro acredita representar uma mudança real em nossos tristes trópicos, acredita estar fazendo a omelete sem quebrar os ovos, trazendo desenvolvimento a um país que segue medievalmente arcaico.
Que diabo as pessoas inteligentes do mundo estão fazendo? Filosofando sobre a infinitude do infinito, ocupados demais para se meter com essas coisas, correndo atrás do seu lado primeiro? Observando tudo de suas torres de marfim? Ou sufocados pelo mar de estupidez de assola o planeta? De que adianta avançar tanto na técnica se estamos estagnados na época do pensamento único? Se nem a iminente catástrofe ambiental, nem a escassez inevitável de nosso principal combustível e matéria prima, e, pior, de água: a matéria prima da vida, bastam para que minimamente mudemos nosso modo de vida?
Que espécie de juventude é essa, hipnotizada na frente da tevê e do computador, ferramenta que deveria libertar cada um para buscar informação, e não estupidificar mais ainda. Sem um inimigo claro, como uma ditadura militar ou costumes repressores, nós outros, os jovens, contentamo-nos, quando muito, com brigar contra um monstro amorfo chamado globalização, sem nunca saber qual seria o meio de derrubar essa estrutura corporativa mundial. Feita a revolução sexual, tropeçamos na SIDA, e hoje o medo tomou o lugar do pudor como freio da sexualidade, que continua tabu depois de tudo.
Culturamente, depois de um século iconoclasta por natureza, estamos claramente confusos, sem saber ao certo o que é arte. Precisamos ressucitar estéticas fracassadas porque não se conseguiu dar uma cara à década, e agora já é meio tarde… Por mais que coisas realmente boas e inovadoras aconteçam, elas ficam mais no subterrâneo que no circuitão, dominado pela mediocridade. No Brasil, é ainda mais triste: jabaculê pra tudo que é lado, o que era uma manifestação desesperada de jovens sem escolaridade e mergulhados na criminalidade virou mania nacional; a história de dois pobres iletrados que atingiram o estrelato vira filme com nosso dinheiro e ainda é louvado como obra-prima.
Lê-se cada vez menos, escreve-se cada vez pior; acha-se de tudo nas livrarias, menos literatura; crianças crescem usando uma língua anárquica, o que não seria mau se não desprezassem a oficial; nunca houve tantas possibilidades de comunicação, mas o conteúdo continua aquela coisa.
Me diga então: não seria muito melhor ser estúpido? E fique claro que não estou me comparando ao bom brâmane do Voltaire, eu sou apenas uma criança confusa, castigada com dom de discordar de que o modo como as coisas são é como elas deveriam ser. Um Anti-Cândido, pra abusar do Voltaire. Sabe o que é pior? Que em nossa sociedade acomodada, ‘revoltado’ é um termo insultoso. A mídia se esforça em mostrar manifestantes como desordeiros e convercer-nos de que está tudo às mil maravilhas. Para quem pertence à elite, é fácil acreditar; quanto à escória, basta hipnotizá-los com tramas estúpidas, ou espetáculos de ‘realidade’, que são mais debatidos do que os problemas da nação. Até Equador e Bolívia foram capazes de mobilizar sua população para derrubar governos que não representavam os interesses do povo ou traíram sua confiança. Aqui, um partido de esquerda chega ao poder e desdiz tudo que dissera, persegue quem mantém sua posição e ainda corre o risco de continuar no mando, mesmo com toda a indecência que tem vindo à tona.
Vivemos numa realidade paralela da qual as pessoas são incapazes de se libertar, como em um recente sucesso hollywoodiano. Pois azar o seu se você escolheu a jujuba vermelha, era melhor continuar estúpido. Ou mais confortável pelo menos.
Titulo: A Caça do Kiffa
Autor: Leonardo Augusto
Gênero: Crônica
Data de publicação: 4 de dezembro de 2005
Resumo: Vol. 1 de x
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hahahaha, estou rindo até agora da tal “jujuba vermelha”, Léo, ficou hilário no meio de tamanha verborragia, hahahahaha…