A censura e a cegueira do cão

Crônica por Eduardo Socha
19 de abril de 2004

Era dezembro de 68 quando o jugo militar firmou o Ato Institucional n° 5, concedendo à máquina repressora o controle da liberdade e do exercício de direitos públicos. Golpe consolidado, reprimia-se agora o coro dos descontentes. Para tanto, criaram o Regulamento Censório, que estabelecia uma espécie de conduta em nome da “liberdade vigiada”. Na outra ponta, artistas concebiam novos jogos linguísticos, novas metáforas, e assim tentavam driblar a navalha da censura. Contestações abertas ao regime não encontravam mais espaço. “Roda Viva”, de Chico Buarque, havia sido proibida, deixando claro que a intolerância pautaria a ordem do dia dali em diante.

Chico perturbava constantemente o flanco autoritário da época, e por isso a censura chegou a lhe dar um tratamento quase VIP. Na prática, passava muito pouco de suas músicas, que eram verdadeiros sucessos na tesoura dos censores. Tesouradas vinham de cima a baixo, a tal ponto que Chico se viu obrigado a inventar o heterônimo Julinho da Adelaide, figura especialmente forjada para assinar algumas de suas canções. Dessa maneira, músicas como “Acorda Amor” e “Milagre Brasileiro”, de autoria do Julinho, puderam então escapar da censura.

Em 74, Mário Prata conseguiu conversar com o suposto compositor (o próprio Chico). Cercada de uísque por todos lados, a hilária entrevista merece um capítulo. Julinho, por exemplo, declara que foi realmente marcado pela música popular brasileira, logo depois que Sérgio Ricardo atirou um violão contra a platéia e o acertou em cheio, rasgando-lhe duas cicatrizes no rosto. Disse também que sua mãe ? a Adelaide ? era amiga ?íntima? de Vinícius de Moraes, Tom Jobim e Niemeyer e que esse Chico Buarque queria aparecer às suas custas. O filho da Adelaide sobreviveu até 75, quando o Jornal do Brasil desmascarou o heterônimo; fato extremamente constrangedor para a Polícia, que passou a exigir cópia de documento dos compositores.

Na semana passada, o mesmo Jornal do Brasil trouxe uma reportagem com a dona Marina Brum Duarte, uma das censoras de Chico na década de 70. O comentário dela sobre o momento em que vetou “Cálice”, canção de alta voltagem contestadora, ilustra muito bem o embate daquele período: “Pensar que eu não ia deduzir que aquele cálice não era uma taça, e sim uma referência ao silêncio… francamente. O que ele (Chico) achou? Que eu era uma trouxa?”

Dona Marina não se arrepende e tem “convicção da opção que fez num momento de necessidade”. Reconhece porém que isso lhe acarretou isolamento e que de fato “a censura foi eivada de coisas horrorosas”. Ela relata o encontro que teve certa vez com Chico, durante um casamento de amigos em comum: “Eu o vi e me apresentei. Ficou uma situação insustentável. Ele apenas sorria, não conseguia articular uma palavra. Aí cumprimentei os noivos e fui embora”. Hoje, aos 83 anos, dona Marina, cingida pela discrição e pelo silêncio, vive em Nova Friburgo na companhia de um cachorro e de alguns livros. O cão, embora velho, certamente nunca viu o Julinho ou o Chico de perto. Mesmo porque, curiosamente, o cachorro de dona Marina, além de velho, também é cego.


Titulo: A censura e a cegueira do cão

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Crônica

Data de publicação: 19 de abril de 2004

Resumo:

Como o AI5 criou Julinho da Adelaide

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4 Comentários

  1. TICO disse:

    E A CEGUEIRA DO CÃO.

  2. Ana Lasevicius disse:

    Eduardo, por favor entre em contato comigo, preciso conversar com você sobre o Taiguara.

  3. PH disse:

    Aê Socha. Já conhecia a trajetória do Julinho da Adelaide. Mas contada por vc, estes fatos ganham novas cores. Parabéns!

  4. Alexandre Piccolo disse:

    Excelente, Socha, da informação à concretização, com muita sutileza, de uma “nervosa” metáfora popular…

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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