Crônica por Mário Neto
17 de junho de 2004
Dias corridos de preparativo. Nas duas semanas seguintes estarei em Brasília, de onde pretendo escrever algumas linhas -- veja bem como tenho sido cuidadoso em não prometer, ainda mais em Brasília, a cidade das promessas fáceis. Talvez o clima de lá -- santa ilusão -- possa me ajudar a olhar para as coisas de uma outra forma. Dizem que é esse o problema da rotina: nos cega para o que está sempre tão presente ao nosso redor. Quem sabe lá torno a abrir mais meus olhos.
Para essa semana, fui a fundo no tempo e peguei no dente um texto que tentava se esconder dentro de um buraco de tatú. Li, reli e concluí: vai ele mesmo. Está aí. Nas próximas duas semanas, tento me esforçar mais, ser responsável e, se possível, estimular a imaginação e a criatividade com alguma coisa que valha a pena escrever -- aqui juro que pensei em um trocadilho.
Por hora é isso.
A culpa é deles
Ouvi certa vez que, quando você tiver algum problema e tiver alguém para por a culpa, então pode ficar tranquilo. Não sei se consigo estender esta afirmação para todas as situações possíveis, mas em algumas eu não tenho a menor dúvida de que ela efetivamente funciona.
Veja, por exemplo, o caso da limpeza pública. Quantas ruas estão imundas, com lixo espalhado por todos os cantos, papéis voando, cocôs de cachorro, embalagens de salgadinho, papéis e palitos de sorvete, caixas de papelão, e a lista segue. Fica a pergunta: de onde vem tanta sujeira? Talvez alguém arrisque apontar o dedo a uma meia dúzia de mal educados, outros dizer que é fruto de uma população pouco civilizada, subdesenvolvida, pobre, inculta. Há, ainda, os que culpam o governo: prefeitura, estado, união.
Sem levar em consideração as razões disso tudo -- da sujeira, da porquice que fazemos com o mundo, etc. --, o que é interessante é a nossa habilidade em transferir a culpa. Ela nunca é nossa. É do vizinho que é um porco, do jovem que não aprendeu que lugar de lixo é no lixo, da empregada que não sabe fechar o saco direito, do vendedor de sorvetes que não é ético e joga tudo na calçada, dos filhinhos-de-papai que fumam seu cigarrinho e jogam suas latinhas de cerveja, etc. A culpa é sempre dos outros, nunca é nossa. Nunca.
Se todos que se dissessem limpos fossem realmente o que dizem ser, as ruas seriam outras. Nem as reconheceríamos. Imagine que lindo seria não ver mais a cara daquele político carequinha colado nos postes. Ou enfim descobrir que aquela parede cheia de rabiscos era na verdade um muro. Mas todo mundo sabe que não é assim. Alguém deve estar mentindo, ou, para não ser tão duro, alguém deve estar enganado quanto à sua higiene pública. Essa história da sujeira me lembrou inclusive a da inveja: todo mundo diz ser invejado, mas ninguém é invejoso. É um problema matemático insolúvel.
Onde moro vejo com frequência aquele pessoal que leva o Bidú para passear. Passear? Oras, levam o Bidu para aliviar as necessidades, fazer o seu cocô diário. Depois pisam num cocô de cachorro e soltam vitupérios e lamúrias para todos os lados. Às vezes pisam nos excrementos do seu próprio Bidú…
Tem também aqueles que acham boa coisa tanta sujeira. É sinal de produção, consumo, movimentação de capital. É sinal de vida econômica ativa. Sem contar que é uma forma de garantir emprego -- haja garis pra tanta porquice. Lixo também é sinal de modernidade. Veja quanta porcaria jogam os EUA e os demais países industrializados -- ou seja, praticamente todo o mundo. Lixo é moderno. Ou é consequência do mundo moderno. Tanto faz. Ele está aí, aqui, em todo lugar: em calçadas e ruas, onde alcançam nossas vistas, narizes e pés, e em rios, lençóis d'água, mares…
Mas será toda essa sujeira apenas uma questão de higiene, estética ou (falta de) cuidado com a natureza? Claro que não. Tem tudo a ver com nossa relação com o que é privado e o que é público. Calçadas, ruas, postes, muros, rios, mares, florestas, cachoeiras: quem é o dono? Sem contar que as ruas e os espaços públicos são cada vez mais caminhos, pontes entre castelos privados. Deixaram de ser lugares para serem entre-lugares. Não são mais espaços de convivência, especialmente em grandes cidades. E mais: quem vive na rua é o que mesmo?
Oras… essa preocupação com o mundo e com o que fazemos com ele é muito clichê. Parece discurso de esquerdista radical, de comunista desempregado ou de ativista cínico do Greenpeace. O bacana é nos preocuparmos com nossa consciência. Enquanto tivermos alguém em quem por a culpa, podemos ficar tranquilos. A culpa é sempre dos outros, nunca é nossa. Nunca.
Mário de Souza Neto não gosta de sujeira, mas confessa um crime: deixa seu quarto um tanto desorganizado e caótico.
Titulo: A culpa é deles
Autor: Mário Neto
Gênero: Crônica
Data de publicação: 17 de junho de 2004
Resumo: Não se preocupe: há sempre alguém a quem apontar o dedo.
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Vai pra Brasília e deixa um texto falando de sujeira - e que a culpa é dos outros!?!?! Faltou só aquela tradicional frase de rodapé de novela que exime a ficção de coincidir ou assemelhar-se com a realidade…