A dança da solidão

Crônica por Thiago Mom
24 de novembro de 2005

Calma, rapaz. Sem desespero. Vocês passaram o domingo inteiro rindo, se pegando e tomando bohemias estupidamente geladas com Paulinho da Viola, Zeca Baleiro, Luiz Melodia e Sandra de Sá ao fundo e agora ela continua com o namorado? Alegando que você sabia do namoro e portanto o risco-ilusão era seu? Escrevendo e-mails pro cara na sua frente, no emprego, ignorando as noites insones que você tem passado com "A dança da solidão" nas caixas? Difícil, sei, mas nada de ficar se remoendo ou liquidificando as pitangas no ouvido dos outros ? "amor não é coisa pra amador", já disse Millôr Fernandes, e mulher com namorado muito menos, acrescento eu. Escute este calejado cronista e escolha um dos seguintes placebos verbais.

1) Método Joselito: inspirado no personagem sem-noção do programa "Hermes e Renato", consiste em 50% de impulsividade e 50% de falta de bom senso ? invariável e infelizmente levando ela a se arrepender até mesmo dos shows. Inunde a caixa de mensagens do e-mail e do celular dela com boletins do seu abalo sentimental. Mantenha a ilusão de que amor não correspondido é amor não suficientemente declarado: pare o carro em cima da calçada, ligue o pisca-alerta, compre um cartão telefônico e declare, num volume acima do trânsito das seis da tarde, que você gosta muito mais dela que o namorado. No almoço do dia seguinte, encoste a sua bandeja na dela e peça boletins do abalo namoroso que a sua ligação evidentemente provocou. Vantagem: você vai ser ejetado da vida dela e isso pode levar à reação. Desvantagem: a palavra auto-estima não vai constar nas próximas edições do seu dicionário.

2) Método vingador profissional: ao melhor estilo "O Grande Gatbsy", privilegie o trabalho pelos próximos dez anos, tendo sempre como alvo o dia em que ela vai constatar sua capacidade de superação e se arrepender de ter te dispensado. Claro, na verdade o mais provável é que ela chegue um dia em casa em 2015, ligue a TV e, vendo você sucedendo o Willian Bonner, comente com o terceiro marido: "Ah, olha ele lá. Até que converteu aquela frustração toda em alguma coisa". Vantagem: salário e status. Desvantagem: leia "O Grande Gatbsy" e você vai entender.

3) Método "nem era tudo isso": Ela nem chega a 1,65m. Essa mania de falar palavrão pode até ser engraçadinha uns dois meses, depois cansa; esse negócio de contar piadas e curtir cerveja, a mesma coisa. Tem indícios de ninfomania e beija absurdamente bem, mas existem qualidades mais importantes. Acima de tudo, tem mau gosto: não me quer. Vantagem: mesmo sendo uma estratégia forçada, evita que você idealize a pessoa e se coloque pra baixo. Desvantagem: me passe o telefone dela e boa sorte ? vai que num show do Paulinho da Viola em 2009 você encontra outra mulher dessas. Enquanto isso, tome vergonha na cara e pare de escutar "solidão palavra/amarga no coração/resignado e mudo/no compasso da desilusão" iluminado pela luz do som, maluco!


Titulo: A dança da solidão

Autor: Thiago Mom

Gênero: Crônica

Data de publicação: 24 de novembro de 2005

Resumo:

Deu errado? Nada de ficar se remoendo ou liquidificando as pitangas no ouvido dos outros.

3 Comentários

  1. Mário disse:

    Haha. Massa!

  2. Alexandre Piccolo disse:

    legal, texto engraçado, Thiago. Imagino que a versão normal para os “amantes-amadores” é passar, na ordem sugerida, pelas três fases em doses homeopáticas, até que chegue o próximo show do Paulinho da Viola, do Bonde do Tigrão, do Gera-Samba, quem sabe até do Pearl Jam… e, no final, tudo há de se repetir novamente.

  3. Leo disse:

    Bacana, Thiago. Auto-ajuda às avessas.
    Muito divertido.

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