Crônica por Paulo Henrique
25 de maio de 2004

Desde criança, tenho um problema sério, daqueles que acompanham por toda a vida: não consigo encher uma bexiga. É uma inabilidade tosca, eu sei. Acho que poucas pessoas no mundo têm esta dificuldade. Mas eu sou uma delas. No começo, tudo bem, eu era uma criança débil e indefesa, sempre voltada para atividades mais introspectivas e com pouca habilidade motora. Durante o pré-primário, acho que tia Talena compreendia este meu perfil problemático e por isso não me deu pau em "Bexigas I" - se bem que eu fui reprovado em "Cola e Tesoura", que segurava "Bexigas II".
Mas eu cresci um pouco e, não obstante as dificuldades psíquicas e motoras, desenvolvi algumas habilidades. Por exemplo, eu sabia como ninguém salvar besouros esturricados no asfalto pelando e reavivá-los com um banho de água fria, no tanque de lavar roupas. Outro exemplo era o incrível dom de pular fogueiras nas festas juninas. Incansável, eu passava horas a fio pulando as chamas sem me queimar, mesmo depois da brincadeira ter ficado sem-graça. Era o meu momento de glória.
Mas as bexigas ainda eram meu calcanhar de aquiles. Lembro-me dos momentos de solidão, quando todos meus amiguinhos me convidavam para inflar balões durante os preparativos para suas festas de aniversário. No começo, minha deficiência me colocava em situações ridículas, me alçando para o posto de "Mobral" da turminha. Depois, com um pouco de mais maturidade, eu me esquivava da missão, me oferecendo para outras tarefas, como por exemplo, ajudar a mãe do aniversariante a enrolar brigadeiros e cajuzinhos.
Cansado destas situações, me tornei um determinado! Centenas de bezouros devem ter morrido escaldados pelo sol, enquanto eu passava horas compenetrado em treinos para encher bexigas. Soprava, soprava, mas a bexiga nunca chegava naquele formato grande e vistoso. Ora ficava rodonda e flácida, ora estourava na minha cara. Isto sem contar no insuportável gosto de borracha e no pó branco que ficava na boca, parecendo que eu tinha comido esfirra do Habibs (em tempo, naquela época eu nunca tinha comido esfirra do Habibs). E para dar o nó final, então? Impossível! Nas raras vezes que eu conseguia encher o balão, eu fracassava no grand finale. Nunca achava espaço entre meu dedo e a borracha, para dar o nó. O resultado era aquele assovio irritante de ar saindo de dentro da bexiga - sem contar a dor no maxilar…
Tudo em vão. Apesar de ter crescido e desenvolvido outras habilidades relevantes (eu já disse que tenho álbuns completos de todas Copas do Mundo, desde 1990?), esta incapacidade de encher bexiga me persegue. Veja bem, estes dias eu fui no aniversário de 60 anos do meu tio Joaquim, em Muzambinho, e passei pela constrangedora tentativa de encher balões. Até minha priminha de 10 anos se saiu muito melhor que eu e ainda tirou uma onda com a minha cara. Beleza, deixa quieto, tô acostumado.
Só que o porvir também me preocupa. Ciente deste drama, minha noiva me atentou para um problema que teremos, mais cedo ou tarde. Quem encherá os balões nos primeiros aniversários dos nossos filhos? Como eu farei para dar-lhes uma festa completa? (Eu até sugeri que colocássemos todos amiguinhos dos nossos filhos para esse trampo, mas fui ignorado). Conseguirei então ser um bom pai, um verdadeiro chefe de família? Note bem, estas são questões profundas, que colocam em risco toda a minha trajetória como homem e, conseqüentemente, as realizações de uma vida. Já vi tudo… Se eu quiser evitar um futuro tenebroso pela frente - e não ser abandonado pela família em um asilo escuro e frio - eu devo tomar uma atitude firme e irredutível: vou aprender a encher bexiga!
Titulo: A difícil arte de encher balões
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Crônica
Data de publicação: 25 de maio de 2004
Resumo: …quase impossível.
Ou voce aprende a encher ou o vai morar no asílo de Nova Resende e aprender a pular com o Joãozinho.
Lindo!!
Muito autentico, senti uma pontinha de saudades, daqueles tempos.Não encontrei a Crônica ” Anésio Eduardo. Abraços.
Se todos tivessem o mesmo dom de encher balões, quem buscaria as bebidas no depósito, pegaria os salgados na d. Maria, o bolo na confeiteira, as mesinhas na distribuidora, o pastel de nata que a esposa tanto aprecia, na cidade vizinha, os enfeites de mesa na loja de decoração de festas, os colchões e travesseiros nas casas dos amigos para receber todos os parentes? Quem faria a padaria para o café da manhã dos hóspedes, correria no supermercado para comprar o papel higiênico que acabou, a pasta de dente e o sabonete? Quem estaria disponível para resolver todos os imprevistos que surgem no decorrer de uma arrumação de festa de aniversário de criança (e repare que estou falando dos imprevistos e não do que já foi previsível ali em cima). Pensando bem… Se vc quiser posso dar curso sobre a arte de encher balões. E não me surpreenderia se vc se tornasse o no. 1 da classe!
Beijos, Bela
ahahahaahaha… Que nada, PH! Compra uma bombinha!!
PH, sensacional! Leve, divertido e confesso… Quanto aos filhos, não se preocupe: encher bexiga com aspirador de pó resolve com tranquilidade o problema
E você ainda pode surpreender seus filhos como especialista em salvar besouros no asfalto. Para um asilo escuro você não vai
MUITO ENGRAÇADO!! Mesmo!
Se precisar de uma ajuda pra encher bexigas algum dia pode dizer: EU ADORO!!!
Ainda bem que eu sei encher balão né?Um beijão!!!
Hahaha, texto leve e engraçado, PH, dos que devem ser recomendados no acervo.
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não se mate pra encher balões, hoje em dia é so comprar um compressor de 4 bicos, compre parcelado, e invista num curso de decoração de balões,com tanta habilidade em escrever, reserve um pouco pra treinar na decoração de festas para parentes, eventos em sua casa, na hora de amarrar, puxe tres vezes o bico do balão para cima, esse movimento torna flexivel o bação na de dar o nózinho treine bastante, ensine seus filhos se ja tiver, tudo isso é questão de paciencia e perseverança. Boa sorte.