A final de Dieust

Crônica por Paulo Henrique
12 de agosto de 2003

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A bola não entrou, mas o gol valeu.
(foto: BBC)

30 de julho de 1966, final da Copa do Mundo na Inglaterra. O juiz suíço Gotffried Dieust sabia de sua responsabilidade. Fora escalado para apitar a grande final entre os donos da casa e os alemães ocidentais. Dois povos embalados pela sólida rivalidade européia e pela fervilhante atmosfera da época. Os súditos da rainha estavam em transe. 95 mil torcedores no estádio de Wembley, cegando os sentidos do juiz, dos bandeirinhas, dos jogadores. O zunido pré-hoolingan já reinava.

A Copa tinha sido um desastre. Apesar de belas atuações, como a do selecionado Português, a violência foi a tônica da competição. O Brasil de Pelé e Garrincha, vindo de um brilhante bicampeonato, sucumbiu à violência dos adversários e também tropeçou nas próprias pernas, com o lastimável planejamento da delegação. Caiu na primeira fase, amargando o 11o. lugar.

Agora só restavam dois times. Dois times feios, diga-se de passagem. A Inglaterra veio aos trancos e barrancos, enquanto a Alemanha, com seu futebol forte, se destacava na competição. Mas a dona da casa sabia que aquela Copa tinha que ser dela, tudo estava pronto para isto. Organizou para jogar todas as partidas no estádio de Wembley. Tinha até derrotado nas quartas-de-final a Argentina, em um jogo inflamado pela guerra das Malvinas. Os inventores do futebol, enfim, estavam com uma mão na taça Jules Rimet.

O solitário juiz, sentindo o problema, tentou não se abalar. Com apito e o coração na boca, puxou o ar e soprou com todos os pulmões. Agora já era. Começou a grande final. O jogo estava truncado. Muitas faltas, catimbas e lances perigosos. Beckenbauer e Overath defendiam a Alemanha contra o ardiloso time de Banks, Bobby Moore e Bobby Charlton. Mas a Alemanha também oferecia muito perigo: aos 12 minutos do primeiro tempo, Haller abriu o placar para desespero dos britânicos. Seis minutos depois a Inglaterra empatou. Dieust apita o final do primeiro tempo com um complicado 1 X 1 no placar.

No segundo tempo, Dieust imaginava que só faltavam 45 minutos para acabar seu sufoco. Ledo engano. Depois da Inglaterra virar o placar aos 33 minutos, a raçuda Alemanha arranca um empate no último lance, levando o jogo para a prorrogação. Aí já é demais. Jogo feio, disputado, sol forte e muito calor. E com mais 30 minutos pela frente. No seu íntimo, Dieust desejava já ter terminado o jogo, de preferência, com a vitória da Inglaterra. Mas os alemães sempre estragam tudo…

Começou a etapa extra. Logo no primeiro minuto da prorrogação, o pesadelo se confirmou. O atacante inglês Hurst chutou a bola com força contra o gol alemão. A bola passa pelo arqueiro Tilkowski, bate no travessão, rebate no chão e sai. Todo o estádio suspende a respiração. Um lance muito veloz, ninguém viu o que tinha acontecido. Totalmente perdido, o juiz olhou para o bandeirinha russo, que estava sinalizando algo. Correu para conferir e o auxiliar deu a sentença: gol da Inglaterra. Dieust confirmou.

Pronto. O estádio veio abaixo numa explosão eufórica, enquanto todos os alemães no estádio - incluíndo reservas, comissão técnica e dirigentes - cercavam juiz com insultos que deixariam Nietzsche corado. Teve até empurrão e confronto dos jogadores das duas seleções. Mas palavra de juiz não volta atrás. Gol da Inglaterra.

Depois dessa, ninguém sabia de mais nada. A Alemanha ficou zonza com a decisão e a história do jogo mudou. Os ingleses estavam muito motivados e - para um alívio momentâneo do juiz - ainda marcaram mais um, sagrando-se definitvamente como Campeões do Mundo. Finalmente eles conheceram o sabor de uma Copa. Dizem que é até melhor do que o sabor de uma guerra.

No final da jogo, depois das comemorações e reclamações, já era notório que a bola não tinha entrado. A TV mostrava claramente que a bola não entrou. Mesmo assim, trinta anos depois, um computador da Universidade de Oxford ainda concluiu o óbvio: a bola bateu 2,5 m fora do gol. Mas já era tarde. Para Gotffried Dieust, restou o amargo destino de cometer o maior erro da história das Copas, ao marcar um gol que não existiu, justamente na grande final, mudando a história do jogo e da competição. Como um bom suíço, Dieust saiu à francesa. Até hoje a Alemanha cita com rancor aquela tarde quente. E a Inglaterra, ainda comemora. É o futebol.


Titulo: A final de Dieust

Autor: Paulo Henrique

Gênero: Crônica

Data de publicação: 12 de agosto de 2003

Resumo:

A regra é clara: o juiz, com seus erros e acertos, também faz parte do jogo.

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4 Comentários

  1. Ronaldo Magalhães disse:

    Não sei falar tão dificil como os jornalistas em plantão, mas o que lê ficou muito bom, muito mais do que esperava ler hoje… algo que vou voltar a ler algum dia desses… pois tudo que é bom acaba rápido, mas nada impede que se repita.

  2. Alexandre Piccolo disse:

    Excelente texto, repleto de vivas imagens e sutis comentários bem colocados, que transformam a crônica em prosa refinada. Mostra de quem conhece bem as belas letras e o bom futebol. Parabéns.

  3. Márcia disse:

    Como são artísticos os seus textos! Nem parece comentário futebolístico… Vc, decididamente, gosta muito das copas! Um beijo.

  4. Mário disse:

    O texto é ótimo, assim como a polêmica. :^)

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Quem é Paulo Henrique?

Cristão, mineiro, 25 anos e jornalista.

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