A la Davi Swan

Crônica por Alexandre Piccolo
16 de dezembro de 2002

Davi Swan é o personagem de um prazeroso texto do escritor norte-americano de família puritana, Nathaniel Hawthorne, nascido na primeira década do século XIX, que começa com uma filosófica hipótese que mais parece uma dúvida ou indagação, deliciosamente bem trabalhada no desenrolar do conto: "Se pudéssemos conhecer todos os percalços do nosso destino, e a vida seria tão demasiado cheia de esperança e medo, de louvor e decepção, que não nos deixaria uma única hora de paz verdadeira".

Instantes atrás vivi como Davi Swan, não com a mesma pompa ou lembrança, mas "dormindo" diante de todos os caminhos possíveis de meu destino. Ao entrar no prédio, uma morena de pele branca, com um belo rabo-de-cavalo delineando-lhe os cabelos negros, descarregava miudezas do carro para o prédio. Olhei-a nos olhos e em todo o corpo e ofereci de boa e pronta vontade, talvez com um sorriso malicioso demais: “quer ajuda?”. Ela devolveu, sem pestanejar, um “não precisa” e tomava já iniciativa e colocava item a item para dentro do edifício, bem senhora de seu nariz.

Deveria ter sido mais simpático, direto ou prestativo, não sei bem qual destes (senão todos), exprimir um clássico “não, imagina, ajudá-la é mais que um dever, é um prazer” ou algo como “sou seu admirador e escravo”, ou qualquer outra baboseira simpática para agradar a moça, ser chato e solícito ao ponto de receber um sorriso em recompensa, quem sabe daí algo mais, porém esquecer, em qualquer olhar ou intuição prévia, esse “algo mais” desde então almejado… Fui orgulhoso: não quer ajuda, não ajudo; sigo em frente. Segui. Daí ? não pelo orgulho mas pela vacilada ante infinitas chances ? é que digo a la Davi Swan, porque deste devaneio me vieram possibilidades mil, alternativas tão díspares e distintas, porém tão realizáveis do ponto de vista “estatístico” quanto como no conto de Hawthorne, cujo título é o nome do próprio protagonista dorminhoco. Afinal, depois que "inventaram" a estatística tudo passou a ser possível.

Se tivesse insitido na ajuda, talvez ela gostasse de minha simpatia, poderíamos sair, nos conhecer e daí dêem asas à livre imaginação. Talvez, numa hipótese mais descuidada, deixasse cair algo e quebrasse, por exemplo, seu lap-top ou algum objeto caro e que ela muito estimasse, ficaria eu embaraçado e endividado com esta e outra frustração plenamente possível. Quem sabe, numa versão mais graciosa e picante, simplesmente por ajudá-la a carregar tudo para seu apartamento, depois de terminado o cansativo trabalho, visse-lhe por acaso a cor da roupa de baixo e num ímpeto comentasse (sim, em voz alta), “bela calcinha branca”, e eu levaria… um merecido bofetão na cara, pra aprender a não ser tão enxerido e imaginativo. Tudo é possível, quando a ventura inspira as vicissitudes das gerações (ou da jovem imaginação).

Curiosamente, o final de toda a história deixa como resposta uma pergunta, cuja eterna indagação fecha o ciclo filosófico que paira no ar ao final da narrativa, e me deixou por um bom tempo divagando: "Não será um argumento em favor de uma Providência vigilante o fato de, enquanto acontecimentos invisíveis e inesperados se atiram sem cessar em nosso caminho, haver contudo bastante regularidade na vida dos mortais para que a previsão tenha uma utilidade pelo menos parcial?"


Titulo: A la Davi Swan

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Crônica

Data de publicação: 16 de dezembro de 2002

Resumo:

Uma espécie de crônica com cara de conto, cheia de hipóteses e um “quê” de reflexão literária. Ainda não sei como melhor classificar estes parágrafos.

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