A Macaca e a Tonga

Crônica por Eduardo Socha
19 de julho de 2004

Tem dias que a gente está com a macaca e não sabe bem o porquê. Sempre irritada, a primata aparece de repente, às vezes quando o cidadão abre o jornal para ler as tragédias do dia anterior, às vezes quando vê as impressionantes declarações de alguma cantora infantil no horário nobre. Como estava comigo e parecia muito agitada, levei a macaca para tomar uma cerveja ali no bar do bigode e tentei descobrir o motivo da sua visita:

- Fala, macaca, que que houve desta vez?

- E você ainda pergunta? Tem lido os jornais, ô mancebo?!

- Tenho sim. Tó, pega uma banana e tenta ficar mais calma.

- Obrigada… você viu essa posição do país no ranking do IDH? 72o. lugar! Em termos de desenvolvimento humano, estamos mais atrasados do que a Tonga, Albânia e Bósnia-Herzegovina! Até a Bósnia, com aquela guerra e tudo. Por acaso você sabe onde fica a Tonga? Sabia que é um país?

- Não, macaca.

- Nem eu, mas não interessa. O fato é que se vive melhor na Tonga.

- Hmmm, peraí, não tem aquela música do Vinícius, que fala da “tonga da mironga do kabuletê?” Será que é a mesma Tonga?

- Cala a boca, energúmeno. O país inteiro em bancarrota e você fica aí de brincadeira?

- Tudo bem, fique calma. Ô bigode, por favor, mais uma banana… afinal, macaca, que você quer? Uma passagem para Tonga?

- Dá vontade. Tá certo que catástrofe social não é lá notícia nova, e que injustiça e futebol sempre foi com a gente mesmo. Disseram que essa falta de melhoria retrata o imobilismo da gestão FHC. Pode ser. Aí, a gente deposita as fichas políticas nessa oportunidade histórica do Lula e o que vê, depois de quase dois anos? Ortodoxia econômica do reinado anterior, loteamento de cargos, show de ministros, etc. E o que mais? Um pedido para que as pessoas tenham “paciência de mulher” e para que não entrem nos juros do cartão de crédito. Pode?

- Olha, macaca, como disse o Chico Buarque, também estou insatisfeito, mas não decepcionado. Acho que ainda pode melhorar. O Lula não é um aventureiro. E depois, seria muita ingenuidade acreditar que a posse de um presidente modificaria a velha e pestilenta estrutura social. A coisa não depende só dele, o buraco é mais embaixo.

- Você e seus chavões… não vou nem discutir. Bom, mas o motivo mesmo da minha visita é pessoal. Vou falar a verdade: você precisa dar um jeito em algumas coisas aí da sua vida, mancebo.

- Ô macaca, pega leve, que essa conversa vai ser publicada…

- Pois é exatamente sobre isso que queria falar. Você tem escrito cada aranzel ultimamente, cada lengalenga que, faça-me um favor, são de envergonhar…

- Macaca, cuidado.

- Por exemplo, aquela do…

Nesse momento, levantei, pedi a conta pro bigode e arrastei a macaca pelo braço. Não sabia nada de politíca nem de crônica, essa primata. Entorpecida por bananas nanicas, já tinha passado dos limites. Resolvi levá-la ao aeroporto e despachei-a para a Tonga, com escala em Miami. Quem sabe a macaca fique mais tranquila por lá. O único problema é que paguei a passagem no cartão de crédito. Acabei não atendendo aos apelos do presidente.


Titulo: A Macaca e a Tonga

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Crônica

Data de publicação: 19 de julho de 2004

Resumo:

Tem dias que a gente está com a macaca e não sabe bem o porquê

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2 Comentários

  1. Alexandre Piccolo disse:

    Hahaha, a macaca tá solta mesmo!

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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