Crônica por Eduardo Socha
9 de agosto de 2004
Capitulei sim, cedi às incontornáveis pressões da minha sobrinha e, munido de balde de pipoca, pirulito, copo de refrigerante e algum constrangimento, fui com ela ao cinema para ver o desenho animado Shrek 2. Os criteriosos leitores que me perdoem, mas a função de tio inclui percalços de tal ordem. Às vezes, precisamos quebrar a ossatura crítica do nosso materialismo dialético rudimentar e assistir ao maldito Shrek ou ao Nem que a Vaca Tussa, tudo em nome da nossa função na família. Se alguém viesse, por acaso, cobrar-me uma justificativa marxista por eu estar ali, junto à molecada, na fila do Shrek com um pirulito na mão, simplesmente apontaria para minha sobrinha e o álibi estaria formado. Ela me protegeria do embaraço.
Para minha surpresa, entretanto, boa parte daquela “molecada” tinha justamente a minha idade. Era espantoso: adultos na faixa dos 30/40 nem sequer traziam filho(a)/sobrinho(a) para se amparar em caso de prejuízo fatal da imagem pública (como tinha sido minha preocupação). Não, eles vieram livremente, saíram de seus domicílios, sozinhos ou ainda em casais, para assistir ao fantástico e maldito monstrengo Shrek - e vejam os senhores onde esse mundo vai parar.
O fenômeno da infantilização cultural alastra-se. Basta ligar a TV e notar o quanto a programação direcionada ao público adulto vem assumindo posturas cada vez mais infantilizadas e usando uma linguagem pueril, ainda que a temática permaneça “adulta”. Certamente, a infantilização nas manifestações culturais de massa não é fenômeno recente, mas nos últimos tempos sua presença parece ter sido mais intensa. Os principais consumidores da série Harry Potter e Senhor dos Anéis são, de fato, adultos. O mesmo vale para filmes do tipo Batman, Garfield e Homem-Aranha, e para gravatas finas com imagens do Snoopy ou do Johnny Bravo.
Na verdade, a celebração da infantilidade levada ao extremo deu origem a novos termos na esfera mercadológica, falando-se hoje em dia em “criandultos” (os “kidults”), “adultescentes”, e até em “peterpandemônio”. Em recente artigo, o sociólogo Frank Furedi situa este grupo na faixa dos 20 aos 35 anos. Surge, para alguns indivíduos dentro dessa faixa, uma obsessão consciente pela imaturidade, sintoma do desejo de não ter aparência de velho(a), mas também de uma insegurança emocional em relação ao futuro e ao projeto de aderir integralmente à vida “compromissada e responsável”.
Outros críticos supõem até um processo mais amplo de regressão e infantilização generalizada, símbolo do vazio cultural que atingiria toda a sociedade. Aqui, cabe afirmar que estes seres catastróficos são vistos pelo senso comum como críticos queixosos, letrados ridículos, zangões doentes e verdadeiros “malas” que não querem entrar no oba-oba do mercado e ficam aí azeitando o parangolé da galera.
Seja na leitura de Furedi ou na crítica mais radical, a nostalgia excessiva pelo retrô é um fato perceptível em vários lugares. Esses dias, ouvi uma elegante senhorita acertar detalhes de reunião através de um celular todo decorado, cheio de adesivos de coração. Depois olhou para o meu, todo liso, sem nenhum adesivo e foi embora. Droga, pensei, antes tivesse colado as figurinhas dos Trapalhões nessa coisa.
Titulo: A nova molecada
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Crônica
Data de publicação: 9 de agosto de 2004
Resumo: A celebração da infantilidade levada ao extremo deu origem a novos termos na esfera mercadológica, falando-se hoje em dia em ?criandultos?, ?adultescentes?, e até em ?peterpandemônio?
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Muito bom! Adorei ler!