A segunda pele

Crônica por Mário Neto
1 de outubro de 2003

Da série "As coisas habituais e o hábito das coisas"

Já faz um certo tempo que venho querendo falar sobre objetos. Sobre esses trecos que a gente olha em volta e nem se dá por conta de que estão ali, de tão habituais que se tornaram em nossas vidas. Talvez o mais correto, ao invés de falar de objetos, seria falar de coisas.

Pois uma coisa é muito mais abrangente que um objeto. Permite não só falar dos próprios objetos, como também de fatos, situações, pessoas… É daquelas palavras que servem como coringa quando falta o vocabulário ou a memória falha:

- Ah, não sei… ela é prima daquele… como é mesmo… o Seu Coisa.

Pois escolhi falar de coisas. E na hora de pensar na primeira, não tive dúvida. Essa coisa que escolhi dificilmente você vai deixar de ver. Ela aparece todo santo dia do seu lado, seja acompanhando você, seja acompanhando qualquer outra pessoa. E é grande a possibilidade de que você viva reparando nessas coisas que são dos outros. Pelo menos aqui, no nosso país, é assim. Aliás, não só no nosso, mas em tudo quanto é lugar do mundo. Talvez essas coisas sejam diferentes em cada lugar, em cada pessoa, mas estão ali.

Não tenho interesse em ficar brincando de adivinha. A coisa de hoje é a roupa. Sim, esse pano que está sobre você e que te acompanha pra cima e pra baixo.

Claro que chamar a roupa de coisa - ou de pano - pode deixar muita gente incomodada. Não é esse meu interesse. Refletir sobre a roupa - e sobre o que fazem com ela - talvez seja o que pretendo discorrer aqui.

Quando pensei em roupa, imediatamente voltei no tempo e imaginei um daqueles trogloditas mais espertos, um de nossos ancestrais, passando um baita dum frio e, num momento de visão, ter pensado: "Se eu matar aquele urso e tirar sua pele, posso pôr sobre a minha e não mais sentir frio". E ele matou o urso, tirou a pele, colocou sobre o corpo e percebeu: "Isso aqui por cima do meu corpo é muito mais quentinho. Não só quentinho, como também bonito!"

Assim, ao caminhar pela sua tribo, a pele de urso fez sucesso. Todo mundo fazendo "Oh!" enquanto o troglodita esperto caminhava todo pomposo com sua pele de urso marrom. Não precisou muito e todo mundo da tribo, homens e mulheres, estavam usando uma pele daquelas.

Mas não demorou muito para outro troglodita, vendo aquele monte de gente usando marrom, ter outra idéia: "Posso usar outras peles, não só de urso". E pensou numa pele que não só o esquentaria, mas que faria sucesso com as trogloditas fêmeas de sua tribo. "Elas acham os tigres dente-de-sabre bonitos". Assim, matou um tigre dente-de-sabre, tirou a pele e colocou sobre seu corpo. Claro que fez sucesso com as garotas pré-históricas, não só porque vestia uma pele do estilo que elas gostavam, mas também porque elas queriam ter uma pele igual. Enfim, ali surgia a semente da moda e do interesse.

Outros estilos de pele foram surgindo e sendo colocadas sobre a pele humana. Lentamente, a utilidade dessa segunda pele, uma espécie de ferramenta humana para contornar as restrições do meio, deu lugar também para a expressão do homem e seu meio social. Peles de urso e tigres dente-de-sabre para locais frios; folhinhas de bananeira ou apenas colares e brincos para os locais quentes.

O que muita gente esquece é que as roupas também são fenômeno de expressão social. Nos locais frios, somente os chefes de tribo poderiam usar as peles de urso; peles de tigre dente-de-sabre para soldados e caçadores; peles de hiena para plantadores de batata. Nos trópicos, todo o corpo nu e apenas uma pena de tucano macho na cabeça do chefe; pulseiras no tornozelo dos caçadores e um colar de pedras pintadas para os plantadores de mandioca. Nada de plantador usando pulseira no tornozelo ou caçador usando pena de tucano macho na cabeça. Deve-se respeitar seu papel social dentro da tribo.

E a complexidade das ferramentas e da própria sociedade parece ter se materializado também nas roupas. Enquanto o homem vivia para comer, sobreviver, se multiplicar e talvez divertir, as peles, colares e brincos eram colhidos brutos na própria natureza e usados diretamente no corpo. Depois, quando o homem passou a viver não só para multiplicar, mas também para ficar sujando o mundo e produzindo coisas em excesso para tornar sua vida mais complicada - e para viver em função delas e fingir que se diverte -, as roupas também ganharam

complexidade.

Assim, usamos várias camadas de peles: cuecas samba-canção ou "transadas", com a gravura de um passarinho amarelo e escabelado ao lado; camisetas com estampas do Mickey; jaquetas com cheiro de couro para continuar atraindo fêmeas. Para as mulheres, então, isso é ainda mais complicado: calcinhas de renda, saiotes, saias, blusas, taileurs, cores, cortes, estilos. Sempre com algo saindo da moda e outra entrando. Às vezes, com aquilo que saiu da moda entrando novamente em moda. E com gente - chata - dizendo quais são as tendências: para esse verão, roupas em grená com recortes ousados; blusinhas que ressaltam o busto e calças que escondem o bumbum. E por aí vai.

E não posso falar em roupas - e moda - no Brasil sem pensar na nossa mania de ser quintal dos outros. Em pleno trópico e temperaturas altas, usamos as peles de urso dos irmãos do frio. E nos gabamos de ser inteligentes. Quando temos que estar elegantes, usamos os recortes franceses, em tecidos ingleses… e passamos um calor infernal. Eu mesmo fui vítima de uma sudorese violenta quando em pleno verão fui obrigado a usar terno para um casamento. Quem é que num casamento vai querer receber seus convidados vestidos em bermudas estilizadas e chinelos fresquinhos? O que irão pensar todos? Assim, mesmo que em nossa história os de lá tenham vindo para cá, tenho a impressão de que poucos ousaram pensar em formas de se vestir mais adaptadas ao nosso clima.

Talvez hoje isso esteja mudando. Muito pouco, mas mudando.

Mas com a força de uma indústria que quer nos fazer pensar que ao usar uma das vestimentas produzidas por ela estamos sendo únicos - mesmo que milhares de cópias idênticas de um certo modelo sejam feitas "para você" -, o que era expressão e ferramenta para vencer as limitações e mostrar a beleza e a criatividade do homem continua servindo como meio para reafirmar desigualdades, ostentar poder e lutar pela conquista de novos cargos e fêmeas.

Afinal, pele de urso não combina com plantador de mandiocas. Pelo menos é isso o que diz nossa realidade.

Mário de Souza Neto não gosta de terno mas, infelizmente, usa quando precisa.


Titulo: A segunda pele

Autor: Mário Neto

Gênero: Crônica

Data de publicação: 1 de outubro de 2003

Resumo:

Nossa segunda pele não é apenas uma ferramenta de proteção.

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4 Comentários

  1. Samira Marzochi disse:

    Os fatos sociais são coisas” (Émile Durkheim). “As coisas não têm paz”(Arnaldo Antunes)….

  2. Amanda M. Melo disse:

    É… E mesmo contrariados mergulhamos nas tais convenções sociais…Homens com horror ao terno em dias estupidamente quentes… Mulheres brigando com a maquilagem, com a quase obrigação de estarem belas (aos olhos de outros) no dia-a-dia. E o que dirá em dia de festa!Lembro bem o dia que fui vestida bem à vontade ao local onde estudo e ter ouvido (de outra mulher) que eu não estava tão elegante quanto no dia anterior… Como se eu tivesse a obrigação de estar elegante todos os dias. Vê se pode?!Beijinho

  3. Alexandre Piccolo disse:

    Concordo de cima em baixo com a reflexão sobre o terno, o qual pouco (pra não dizer “nada”) tem a ver com nosso clima equatorial. Me lembrou a história do Papai Noel passando um calorão danado quando quando vem entregar os presentes natalinos aqui nos trópicos…

  4. Peaga disse:

    Que coisa, Mário! O pessoal do São Paulo Fashion Week deveria ler este texto. Vc pega o aspecto antropológico, de linguagem e pós-moderno da… digamos, “coisa”. Gostei da observação sobre terno e gravata. Me lembrou o presidente Jânio Quadros, quando tentou instituir a roupa de safari para o funcionalismo público brasileiro. Estrionismos a parte, o ex-presidente bem que tinha razão, pois nós - plantadores de mandioca - não precisamos de pele de urso. Mas utilizamos e, pelo jeito, vamos achar legal passar calor, em vão, com paletó e gravata ainda por muito tempo. Vinícius já alertou: “detesto tudo que sufoca o homem. Inclusive a gravata”. E tem muito mais coisas pra comentar do seu texto. Mas paro por aqui. Parabéns!

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