Crônica por Emerson Penha
26 de junho de 2004
Chovia muito, o avião dava voltas, chegou a desistir em cima da hora de uns dois pousos. Há muito eu não andava por aquelas bandas, vinha da América Central, era o primeiro aeroporto de volta ao Brasil, finalmente. Seis horas de carro, mais cinco em um avião de confiabilidade duvidosa, estava ainda a umas boas oito horas de casa. E estava exausto. Trabalhara feito um animal de carga, sem parar por dias a fio, dormindo em um hotel fétido, andando entre periferias emprenhadas de miséria. E agora os sacolejos da aterrissagem que se anunciava. E quedas de avião são sempre cinematográficas.
Acabei entretido com um jornal do dia anterior e quando vi, estávamos em terra. Descemos sob a tempestade equatorial e entramos em um saguão estreito, espremido de gente. Um calor insuportável, agravado pela roupa ensopada. Comissário de cara alegre dava a notícia de que talvez não decolássemos tão cedo daquela escala. “Chove na Amazônia Inteira, do Peru ao Maranhão” disse, com um sorriso entre o serviçal e o cínico.
A alfândega mais parecia uma blitz. Policiais armados reviravam malas, fiscais interrogavam tipos suspeitos. Não demorou e pude sentar-me à mesa de um bar nos fundos. Entre crianças que choravam, bêbados que gargalhavam, era possível ouvir o aparelho de televisão. Sinal por satélite, um lugar daqueles. De longe mesmo, corri os olhos nas manchetes de jornais expostos em jirau na lojinha ao lado. “O Rio Branco” tinha título cor-de-rosa, bonina até. Impossível não ver. Ouvi os recados do telefone: mulher brava, chefe irritado, parentes chatos. “A cerveja está quente”, avisou-me o garçom. O congelador havia pifado, arranjaram outro emprestado, demorou. Passei a vista na prateleira, pedi uma dose do gin, uma lata de água tônica, um limão. Umas duas pedrinhas miseráveis de gelo vieram na quarta viagem do cara.
Um assunto na tela do televisor chamou a atenção. Era um jornal de uma rede de Tv a que eu quase não assistia, o apresentador anunciava uma história de uma CPI da pistolagem numa Assembléia Legislativa. Começou a reportagem, eu conhecia aquela voz. Trabalhei por lá, vivi intensamente o lugar, adorável e cheio de conflitos, mal dos tempos. Talvez fosse alguém com quem trabalhara, ou cruzara naquele tradicional burburinho de repórteres em eventos ou matérias factuais.
Levei um choque terrível quando entrou a passagem com um rosto marcante. De estalo, lembranças submergiram, como se uma chave fosse ligada. Sim, eu conhecia aquela mulher. Passou feito um tufão em minha vida, arrombou janelas, portas, derrubou quadros, dizimou jardins. Foi embora feito chegou, deixou terra arrasada. Tive de deixar o litoral, bicho de corpo, subir de volta a montanha, voltar a viver em meu soalheiro, aos poucos o sol manso foi-me devolvendo a alegria.
Funciono de forma irregular, penso. Apaguei da mente as imagens, os cheiros, a voz. Em sonhos, podia ver, ouvir e sentir tudo isso, ficou no inconsciente, mas em vigília eu não me lembrava de suas feições ou voz, nem que me esforçasse. Naquela hora, a imagem e o som trouxeram tudo à tona.
Menos a dor. Não doeu. Um suspiro fundo, talvez, da desesperança em crer nos amores. O que poderia ter sido e não foi, pensamento risível de ingênuo, ri de mim mesmo. O alto-falante pediu que fôssemos à sala de embarque. Paguei a conta e entrei na fila. A chuva dera uma trégua, decolamos minutos depois. Eu deixava para trás a selva das plantas, dos bichos, e a das mulheres do passado, onde cipós se enredam entre emoções súbitas e pelos pubianos. Afundei na poltrona. Só acordei quando o avião fazia procedimentos de pouso, e o sol no horizonte, filtrado pela lente das janelas, tingia tudo de âmbar.
Titulo: A selva nossa de cada dia
Autor: Emerson Penha
Gênero: Crônica
Data de publicação: 26 de junho de 2004
Resumo: Uma crônica surgiu, como sempre, do nada. Como num cachorro perdigueiro, o faro funciona mesmo quando não se quer.
Que ritmo, quantas sensações! Gostei!
muito bom! Parabéns!
Narrativa primorosa!
Muito bacana, Emerson. A mistura das lembranças e da viagem em meio às atribulações do aeroporto e da vida baliza uma reflexão literária que realça o texto, cujo gênero oscila entre a crônica, o conto e o ‘journal intime’. Curti.
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belíssimo! prático, envolvente.