A síndrome do “e daí?”

Crônica por Thiago Mom
18 de fevereiro de 2005

Mais uma daquelas teorias que, por omitirem certas contradições e complexidades, só descem com o 15o chope: trocando idéias sobre o novo filme da Júlia Roberts, reforcei uma cisma de que, no nosso analfabetismo funcional e cultural, temos encarado filmes e livros concentrados demais nas coisas que acontecem e de menos em como essas coisas acontecem.

Perto Demais”, como escreveu o Contardo Calligaris no começo do mês, num texto clarividente como poucos, “é uma demonstração tocante de nossas impotências e incompetências sentimentais”. Só que isso foi simplesmente ignorado por alguns conhecidos. “Água com açúcar, troca-troca de casais infinito”, resumiram. Opinião de quem gostou de “Rei Arthur”, eterna releitura de bárbaros imbecis contra fodões civilizados, com sangue, suor e sofrimento o tempo todo e chefão contra chefão no final. Filme perfeito pra quem tem Alzheimer cinematográfico.

(Claro, você já percebeu, essa crônica é a eterna releitura “filmes elaborados e edificantes vs. filmes de entretenimento forçado”. Na angústia de colocarem fermento no bolo das suas preferências, escritores não raro se tornam rançosos e intolerantes, e a pretensão “isso é apenas entretenimento, você não devia ter gostado disso” não passa de patrulha intelectual egoísta quanto à diferente formação das pessoas, além de ser uma estranha tentativa de pedir a elas que devolvam suas risadas e diversão. Tudo isso é o que adverte o Ministério dos Escritores Minimamente Escrupulosos).

Pegando como exemplo alguns filmes de ação: o sucesso de muito deles é baseado no fato de que os acontecimentos, além de serem muitos, estão estilhaçados e amontoados. Eles querem ver se a gente é capaz de montar o quebra-cabeça e entender a história. Se a gente entende, eles complicam ainda mais da próxima vez: mais exames de DNA trocados, microchips que contêm toda a inteligência do mundo, óculos escuros explosivos, parentescos confusos, celulares clonados, gente voando e, quando você está quase sacando qual a de tudo isso, um prédio explode e um barulho ensurdecedor ressoa pelo cinema. É pra que você pare de pensar. Só pode ser.

Então. Isso é considerado um filme difícil. Basta ler a sinopse no jornal ou atrás da caixa do DVD e você não vai discordar que é realmente um filme difícil. Só que se você tiver paciência, tirar algumas dúvidas com quem também assistiu e reorganizar a ordem cronológica da narrativa (bons diretores e autores jogam com isso também, mas é muito comum que quem não tem nada a dizer de um a cinco diga numa ordem do tipo quatro, dois, cinco, um, três - o que sei porque faço muito), pronto: a história está entendida, e ela se resumia a um grupo de megalomaníacos tchecos que achava que podia se opor à hegemonia de uma fábrica de ervilhas norte-americana. Inteligentíssimo, é ou não é?

O que acontece, muitas vezes, é o que menos importa. Imaginem aquelas chamadas caretonas da Globo anunciando algumas obras-primas da literatura mundial: “Esse cavaleiro andante e seu amigo baixinho vão se meter em altas aventuras!” (“Dom Quixote”, Cervantes). “Ele acabou se apaixonando por uma prostituta e vai acabar se dando mal!” (“Um amor”, Dino Buzzati). “A mãe dessas meninas quer que elas casem de qualquer jeito!” (“Orgulho e Preconceito”, Jane Austen). “Esse cara não quer envelhecer de jeito nenhum, mas vai acabar enfrentando seu pior pesadelo!” (“O Retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde).

Por engraçadinha que pareçam, nenhuma dessas chamadas está errada. Num resumo bem grosseiro, é o que acontece nesses livros. Mas por que, então, com temas aparentemente banais, são romances tão estimados há tanto tempo? Porque o mérito está na maneira como são contados. Se lidos por um analfabeto cultural, no entanto, não tem as nuances percebidas e não significam nada. E digo isso com toda a cumplicidade do mundo: além de ser um analfabeto musical até hoje, por exemplo, até poucos anos atrás eu também não lia quase nada e sofria da síndrome do “e daí?”.

(Música brega de fundo, depoimento) “Quando não conseguia discernir as nuances de uma narrativa, eu me orgulhava por saber acompanhar o seu desdobramento como um cachorro acompanha um osso, e por isso assistia a um filme como “Perto demais” perguntando o tempo todo: “Sim, eles voltaram, mas e daí? E agora?”. Só o que importava era a última cena, a partir do que eu tirava uma conclusão qualquer do que tinha visto. Não raro, era uma conclusão do tipo: “Eles terminam e voltam várias vezes. Mas e daí?””.

Nunca é demais esclarecer, também não estou defendendo a volta de narrativas do século XIX, quando só a descrição de um sofá levava 25 páginas, a de uma cadeira mais 38 e as motivações psicológicas do sujeito andando da cadeira até o sofá, outras 63. Não, cada coisa na sua época. A tentativa de narrar as coisas desse jeito, com muito mais ênfase no “como” do que “no que”, nos rende afetações literárias demais e o que o Jabor andou chamando de “patéticos bisnetos de Joyce” (mais uma vez, minha cumplicidade).

Nosso ritmo neurótico de hoje, aliás, nos dá muitas vezes grandes narrativas ágeis e alucinadas. Só estou tentando chamar a atenção pro fato de que essa nossa obsessão pela velocidade atrapalha qualquer interpretação elaborada, a partir do que nossa cabeça tem virado um tele-entulho de produtos culturais que não sabemos digerir, nem os menos difíceis ? Luis Fernando Verissimo, por exemplo, não é mesmo muito complexo, mas mesmo assim tem milhares de sutilezas e alegorias que passam voando por muitos dos seus leitores, que depois ainda se alfabetizam um pouco e o acusam de fácil demais. Pra essas pessoas, “Dom Quixote” é realmente só a história de um cavaleiro andante precursor do Didi Mocó.


Titulo: A síndrome do “e daí?”

Autor: Thiago Mom

Gênero: Crônica

Data de publicação: 18 de fevereiro de 2005

Resumo:

No nosso analfabetismo funcional e cultural, não sabendo distinguir muito bem as nuances das narrativas, nos concentramos cada vez mais apenas nos seus desdobramentos e desfechos.

3 Comentários

  1. Didi Mocó disse:

    ué, que que tem de errado cumigo?!?

  2. vaninha disse:

    Achei demais essa crônica!

  3. Raquel disse:

    Bárbaro, Thiago! Bárbaro! Esta sua crônica de hoje alcançou não só uma de cumplicidade para com suas idéias, como também de um imenso prazer desfrutado em crescendo pelo modo como foram sendo expostas. Fantástico!

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