Crônica por Thiago Mom
12 de março de 2005
Não faz nem uma hora, o público se levantava pra sair de “Ray”, a cinebiografia de Ray Charles, quando foi brindado com uma espécie de epílogo tridimensional: três mulheres, justamente as três primeiras que passavam na frente da tela em direção à saída, continuaram as cenas do filme sobre segregação racial. Além de “Unchain my heart”, as legendas foram acompanhadas por duas negras xingando uma branca de “vaca branca racista”. Claro, elas tinham sido insultadas antes, e de um jeito que não devia muito ao da torcida do Real Madrid.
Coincidentemente, semana passada li “Ragtime”, livro de 1975 de um escritor chamado E.L. Doctorow que retrata a sociedade americana de sete décadas antes. Entre as várias histórias paralelas do romance está a de Coalhouse, músico negro que um dia se recusa a pagar um pedágio inventado na hora por bombeiros racistas. Vendo que a sacanagem é séria, o músico desce do carro e, com um otimismo cívico espantoso pra época, sai à procura de um policial pra resolver a questão.
Não só o policial se omite como os bombeiros aproveitam a ausência do motorista pra rasgar a capota e literalmente cagar no banco traseiro do Ford T. Pancadaria? Não. O sacaneado insiste, pacato: “Quero meu carro limpo e indenização pelo prejuízo”. Mais tarde, no entanto, percebendo que nem pagando bem um advogado consegue ajuda (imaginem: pagar bem um advogado e não conseguir ajuda), Coalhouse organiza um grupo guerrilheiro e começa uma série de atentados pra conseguir sua reparação ? que, como fica claro pro leitor do livro, é infinitamente mais moral que material.
Quem achou não só esse como também o exemplo de reação das negras absurdo, provavelmente concorda com o que foi dito num artigo recente do caderno “Mais”, da Folha de S.Paulo. Justamente num espaço tão conhecido pelo estofo das idéias em trânsito, o autor do artigo recorreu a uma bobagem comum, ironizando que possíveis camisetas com a inscrição “100% branco” seriam consideradas racistas, enquanto que as que têm escrito “100% negro” não são. O exemplo, então, teria que vir de baixo? Se sou humilhado durante séculos e reajo com orgulho de mim mesmo, além de orgulhoso demais sou rancoroso, é isso?
No Brasil, pelo menos, é exatamente isso. É uma eterna lógica nossa que quem tem menos discernimento tem mais responsabilidade ("menos discernimento", claro, não pela cor, mas pelo fato de a maioria dos negros ter menor grau de instrução). Tenho horror a coitadismo, mas condenamos mil vezes menos um corrupto que teve outras 783 opções na vida do que um fodido que teve 12. Trouxemos os negros no porão dos navios e, mais de duzentos anos depois, uma branca 100% imbecil recorre ao velho porão de preconceitos na saída de um cinema. Mais que subestimar uma raça, ela me constrange por se supervalorizar, querendo dar a entender que a sua ascendência (a mesma que a minha e que a da maioria, no sul do país) não carrega nenhuma vergonha, mesquinhez, megalomania, culpa, covardia, frustração.
Titulo: A torcida do Real Madrid
Autor: Thiago Mom
Gênero: Crônica
Data de publicação: 12 de março de 2005
Resumo: Mais de 200 anos depois de terem suportado os porões dos navios, os negros ainda suportam nosso velho porão de preconceitos e piadinhas sem graça.
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