Crônica por Paulo Henrique
20 de abril de 2004

Floripa é um lugar espetacular, uma ilha cheia de surpresas. Na primeira vez que eu fui lá, teve o tal blecaute, que já contei aqui na aPatada. Agora em abril, fui pra lá pela segunda vez. Já estava preparado para alguma outra catástrofe (o furacão Catarina passou raspando), mas a ilha me reservou outro tipo de surpresa. Desta vez, boa surpresa.
Sempre conheci Floripa pela mídia, pelo turismo, point da galera "experta". Mas isto não é surpresa. De fato, as praias são fenomenais; a lagoa uma dádiva; o camarão do restaurante do Aladim, indescritível; as dunas da Joaquina, divertidíssmas; e meus amigos de lá (Almir e família), sensacionais. Mas isto não é surpresa, todo mundo sabe.
A surpresa - pelo menos para mim - foi sentir a influência portuguesa/açoriana naquela ilha. Sem exagero, eu me sentia fora do Brasil. Ao contrário da primeira viagem à ilha - quando fui para o cosmopolita congresso Futurecom - desta vez eu fui para um congresso de jornalismo organizado pela UFSC, o 2o. Encontro Nacional da Rede Alcar. Assim como eu, tinha gente de todo o país. Mas os anfitriões manezinhos lotavam as salas do encontro.
Aí não passou desapercebido. O sutaque dos habitantes da ilha e o modo deles agirem denunciavam suas origens, ó gajo! Antes de me acostumar com a idéia, fiquei meio perdido com tipo físico das pessoas, os gestos e a fonética característica dos lusitanos. Perdido não, fiquei espantado, parecia que eu estava n'alguma ilha açoriana. Até cheguei a pensar que fosse sacanagem:
- Não me "arombes"! - foi o que me respondeu um manezinho, pendindo para eu parar de encher o saco com estas minhas embasbacadas observações.
Me explicaram que era assim mesmo. "Se queres queres, se não queres, diz". Ou seja, somos portugueses e pronto. E ainda me advertiram, ao clamor do fado: "Isto porque tu não conheces os manezinhos do centro da ilha, criadores de cabras. Eles sim são purtugueses".
Engraçado também é o tom das conversas entre eles. Parece que estão constantemente bravos, uns com os outros ("tu és tolo!"). Mas na verdade, este é o jeitão mediterâneo que eles herdaram dos patrícios e sustentam vivo até hoje. E sustentam com consciência, aliás. Tudo por lá é lusitano. Ruas, estabelecimentos comerciais, arquitetura, museus, nomes e sobrenomes. Há, inclusive, a reclamação de que a prefeitura local só mantém viva a cultura açoriana, deixando de lado outras influências.
Sobre esta polêmica, o mineiro aqui não pode opinar. Mas de fato, a cultura lusófona é fortemente incentivada. No congresso que eu participei, a palestra de abertura foi feita pelo jornalista Luís Humberto Marcos, do Museu da Imprensa, de Portugal. O bigodudo palestrante propôs a criação de um museu sem fronteiras sobre a imprensa de língua portuguesa, nos países que falam o idioma. Sendo em Floripa, a palestra fez todo sentido e agradou o público presente. Imagino que se fosse em São Paulo - ou em outra capital brasileira - a proposta talvez não fosse tão impactante, por causa da característica multicultural da maioria das regiões do país, com influência africana, alemã, italiana, japonesa, francesa, entre outras, tanto na esfera popular, quanto acadêmica.
É claro, faz algum tempo que Florianópolis vem sofrendo influências de outras regiões do Brasil e do mercosul. Mesmo assim, os traços da "terrinha" continuam predominante no comportamento, na fala e pensamento dos habitantes da ilha. Afinal, "pão francês" é coisa brasileira. Lá é "pão de trigo". E quem come o tal "pão de trigo", não é o mineiro, nem o paulista, nem o carioca, nem qualquer outro povo - cada qual com sua própria riqueza e particularidade cultural. É o próprio "manezinho", que faz da ilha de Florianópolis uma versão brasileira dos Açores, servindo como base - em pleno Oceano Atlântico - para uma colonização de duas vias, para a manutenção da particular união que existe entre Brasil e Portugal.
Titulo: Açores à brasileira
Autor: Paulo Henrique
Gênero: Crônica
Data de publicação: 20 de abril de 2004
Resumo: Floripa? Ora pois…
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Bacana, PH. Pra quem conhece Floripa “pela mídia, pelo turismo”, esta faceta é mais que “inusitada”; é bem humorada, curiosa e complementar.