Adeus, agosto

Crônica por Fabiana Tonin
4 de setembro de 2005

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Death in the sickroom - Münch

Com satisfação inenarrável, vi agosto acabar. Não vou me gabar por não ser supersticiosa, porque sou. E não gosto de agosto, apesar do infeliz trocadilho. Ansiosa, posso dizer afoita mesmo, vi esse mês esvair, lento, arrastando cada dia, na expectativa do terrível. A crença popular, o acaso, as circunstâncias me fazem circunspeta e cuidadosa frente a ele. Muita gente morreu em agosto, muitas catástrofes aconteceram. E é o mês de volta ao trabalho ? o que não deixa de ser algo um pouco, digamos, difícil.

A pecha que agosto carrega talvez seja injusta. Como já dizia Marco Aurélio (um dos últimos) todo o tempo que importa, o tempo que realmente vivemos, é o presente; Nietzsche também vai elogiar o tempo do agora como o realmente importante, o único desfrutável. Ora, o presente em agosto é sempre lento, pesado. O mês, nesse hemisfério sul de invernos estranhos, costuma ser frio e cheio de vento ? ventania que teima em não varrer, mas sim encher de pó de outrora, jogar poeira nos olhos. Gota a gota, o presente em agosto demora mais, desgasta mais, teima em ser seco, insalubre para conquistas, para comemorações.Sério demais, lúgubre demais. Assim empurramos nossos agostos. E como esperamos pelo futuro de setembro, mês da primavera, das flores, do calor que se estabelece. Pode até não mudar nada, mas arrancar a folha do calendário, subjugar ao pó e ao esquecimento o agosto que foi, alivia a alma, enche de esperança os olhos.

Neuroses à parte, talvez tudo seja a nossa cabeça. Um mês como outro, um tempo como outro. Mas o ser humano banha em suas mágoas, revê acontecidos, lista desgraças e batiza: agosto, mês do desgosto. De ano em ano, de geração em geração, poucos escapam dessas observações, dos comentários no happy hour, no almoço de fim de semana: ô mês difícil, esse!Depois, quando acaba, ainda que aconteça o pior, é menos grave: seja janeiro, fevereiro, março, maio, etc…Tudo é menos pior fora de agosto, tudo tem a leveza de um ou outro enfeite ? a agosto, restam os pesos, resta toda angústia, todo desespero que precisamos atribuir a algum presente. Tão complexos, tão doentes, contaminamos o mês, elaboramos a falsa catarse e caímos em setembro, outubro, até o Natal. E no ano seguinte, repetimos a comédia, tolos, acreditando que a máscara de agosto vai nos redimir do que não passa de demência nossa.


Titulo: Adeus, agosto

Autor: Fabiana Tonin

Gênero: Crônica

Data de publicação: 4 de setembro de 2005

Resumo:

Ainda sob as sombras do mês do desgosto…

1 Comentário

  1. Tom Jobim disse:

    Tristeza não tem fim…

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Quem é Fabiana Tonin?

estudante de Letras, leitora quase assídua de tudo.

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