Crônica por Eduardo Socha
15 de setembro de 2003

O “atentado poético”, mobilização rapidamente disseminada pelas veias da internet, trouxe pelo menos alguma originalidade para a cantilena previsível do último 11 de setembro. A proposta do “terrorismo literário” consistia em sair de casa com um livro que tenha mudado seu jeito de ver o mundo, escrever nele uma pequena dedicatória e abandoná-lo, ou melhor, “libertá-lo” em qualquer lugar público. O ato pretendia substituir o caráter fúnebre ligado ao 11 de setembro pela marca anônima da solidariedade e pela motivação positiva, revolucionária, que o objeto ?livro? representa na iconografia ocidental.
Apesar da recepção divergente entre céticos, atacando o laivo “moderninho” e publicitário da ação, e entusiastas, que identificam nela uma resposta consciente para os desastres, o movimento parece ter dado certo. Muitos internautas, de fato, abraçaram a causa da “libertação” do livro. Para além das implicações simbólicas relacionadas ao 11 de setembro, é preciso reconhecer que este novo conceito de redistribuição voluntária surge como curioso fenômeno social.
Ao que tudo indica, a inspiração veio da página bookcrossing.com, onde cada volume “libertado” recebe uma identificação através da qual é possível rastrear sua trajetória por entre leitores cadastrados. O site contabiliza aproximadamente 560.000 itens. Nele, o registro do leitor-locatário contribui igualmente para o avanço da idéia, pois a intenção é manter o histórico de todo percurso do livro. O recente “atentado poético”, todavia, baseia-se no anonimato. Deseja indistintamente lançar às ruas o conhecimento até então aprisionado nas estantes. Por isso, dedicatórias do tipo “ao ilustre desconhecido que encontrar esta obra” revelam seu mote primário.
O primeiro desafio da “libertação” encontra-se no leve rompimento com a propriedade. Afinal, são poucos os que se dispõem a abrir mão de um de seus volumes prediletos. “Eu não vou liberar nenhum… mas vou pegar todos que aparecerem na minha frente. Eu sei: eu não presto. Mas nunca disse que prestava”, lê-se no blog de uma internauta. Seu comentário resume com boa ironia o parecer comum que refreou a efetiva expansão do “atentado”. Em última análise, o objeto ?livro?, como qualquer outro bem de consumo, não escapa daquela noção de fetiche, estabelecida por Adorno. Para o fetichista, cria-se a ilusão de que o conteúdo daquele objeto sucumbido ao fetichismo venha a se tornar sua propriedade. Como se houvesse, por exemplo, no ato da compra de um livro (ou mesmo após sua leitura), uma transubstanciação concreta do saber ali presente (embora doloroso, o termo é exato). O conhecimento absorvido durante a leitura de “Brás Cubas”, no entanto, não se coisifica naquela junção de papéis encadernados e capa colorida que simplesmente o intermediou. Tal conhecimento nem mesmo constitui propriedade.
Voltando à libertação do livro, o que se procura implicitamente reafirmar é a supremacia do conteúdo sobre o objeto. Para o libertador, aquela obra merece fluir, percorrer outros caminhos, ressoar com a mesma intensidade em outros cantos. Evidentemente, há volumes que não podem ser classificados como objetos de fetiche, sobretudo aqueles que encerram um justo valor sentimental. Fetiche não se confunde com a necessidade primordial de sempre consultar e revisitar o que julgamos importante; a obra preferida deve sempre nos socorrer em momentos de perigosa urgência literária. Às vezes, mesmo uma biblioteca de diversas estantes não consegue acomodar os volumes que consideramos indispensáveis. Nesse sentido, livros de bolso são pequenas provas (assim como torrões de açúcar) da infinita bondade divina.
Como acontecimento social, a redistribuição voluntária do livro alinha-se à própria dinâmica da internet, sugere uma discreta exteriorização do que acontece na rede: anonimato de acesso e liberdade (pelo menos até agora) de informação. Na verdade, assim como o local, a data aí pouco importa para a essência da manifestação. Desde já, o ilustre desconhecido aguarda a próxima alforria num ponto de ônibus qualquer.
Titulo: Alforria dos livros
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Crônica
Data de publicação: 15 de setembro de 2003
Resumo: O ?atentado poético? trouxe originalidade à cantilena previsível do último 11 de setembro
Muito bom, Socha. No dia 11, pensei em liberar um livro, mas não tive coragem… Afinal, não tenho dois “Retrato de um artista quando jovem”. Gostei muito das observações acerca do fetiche versus necessidade de consulta e da relação entre livros de bolso e torrões de açucar, outro doce elemento abordado em um outro texto seu.
O “sangue jovem” ainda se apega aos exemplares que cuidadosamente coleciono na estante, alguns com dedicatória do autor, do tradutor, do “presenteador” (para também abusar das aspas). Imagino que o tempo agirá em favor deste desapego. Por enquanto, melhor que deixar a esmo preciosos volumes de garantida boa leitura, é dá-los consciente e de bom coração aos amigos que os apreciam.
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Perfeita colocação, demonstrando equilíbrio ao analisar o movimento e compreendendo o gesto de diversos prismas: liberdade ao conhecimento sobre a propriedade, supremacia do conteúdo sobre o objeto. Não o sataniza nem o santifica. Parabéns.