Crônica por Alexandre Piccolo
2 de junho de 2003
Saco, levantar de novo. Embaçado, tudo embaçado. Banho morno, leite frio com toddy, tá acabando vou ter que comprar outro, preciso levar o lixo pra fora, vamos senão chego atrasado, atrasado pra que, ninguém dá a mínima, eu menos… DKF 34…, vvrrruum, capacete preto, moto massa, putz, preciso mandar lavar este carro. Pra que? vai continuar andando empoeirado mesmo, vou pra lá e pra cá e pronto, e eu ainda não sei andar de moto, preciso é comprar uma moto, doidona…
Atraso, atraso nenhum, nem o gordinho da esquina que vive varrendo a rua chegou. Chevete velho no mesmo canto de sempre, será que nunca sai daí. "Bom dia!", sorriso safado, eu quero é que a loira sorria assim pra mim, ah, aí ela vai ver… Saco, relógio de ponto, e eu nem de pulso tenho, se tivesse não usava, chatice, pra que saber o tempo mesmo, ele não dá a mínima pra mim, foda-se ele. Merda, tenho que ir pro banheiro, logo cedo!, por quê tanta merda…
Comida, almoço, deve ser pra ter que ir de novo ao banheiro daqui a pouco. Comida no garfo, garfo na boca. Um papinho pra distrair o gosto de sempre. Feijão, batata e quibe. Pago, a mulher nem agradece. Também, agradecer pra quê? Conectivos. Sei lá, parece que preciso de conectivos, dar razão nesta vida, nas palavras… mas pra quê razão, tudo tá sem conexão mesmo, sem sentido… Nossa, que escapamento cromado, que cor, preciso é dessa mercedes, ah, um dia ainda compro uma dessas e aí todo mundo vai ver…
Preciso ligar pra Paula, Paulinha, quem sabe ela topa uma balada este final de semana. Peitão, blusa preta, batonzão, salto alto… É agora ou nunca! Quem estacionou na frente do portão? Foda, não fizeram o relatório pra mim, também quando se quer algo ou você faz ou se fode, ninguém dá a mínima. Porcaria, sempre eu fazendo. Se me pedem eu faço, se eu peço, ah, todos sempre têm uma desculpa, um "quezinho" que atrapalha, não posso por isso, por aquilo, sempre enrolam. Deve ser esse calor, inferno… Ah, quando comprar minha moto, fujo daqui, eles vão ver. Vixe, tô atrasado pra aula. E com fome, saco, depois como um macarrão quando chegar em casa.
Ninguém anda nessa joça. Por que engarrafa, se fosse bebida numa garrafa eu tomava tudo, sem dó. Nossa, esqueci de ligar pra mina… e por quê que eu vou nessa aula, nem preciso disso. Tô indo de otário, quem quer saber de sistema trigonométrico, curva normal de distribuição, otimizar ou pessimizar, tanto faz. Depois nem aparece no currículo. Preciso é mandar o currículo pra firma do Márcio, ele falou que é só ir lá conversar, jogo fácil, rápido, trampo bico, grana boa. E o supermercado, quando é que vou fazer? Babaca, será que esse cara metido a professor-intelectual não sai dessa. Também… Mas já já tô comendo um macarrão com queijo, não será melhor um sanduba, natural, light, durmo leve, ainda emagreço um pouco?, nada já já como uma pratada de macarrrão e durmo igual uma criança lambuzada. Sono, sonolento, vista embaçada, que horas são mesmo?
Titulo: algo pra daqui a pouco
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Crônica
Data de publicação: 2 de junho de 2003
Resumo: Saco, levantar de novo. Embaçado, tudo embaçado.
Oi Alê, e quem é q nunca se sentiu assim?Um bj, Tia Marilda
curioso, cíclico, lembrou a prosa de Graciliano Ramos, com pinceladas contemporâneas
Gostei muito! Texto fácil e rápido de ler. Bem divertido e me leva a pensar em mim mesmo, que fico assim às vezes…Até a FEA!
Bacana, levou a narrativa no pensamento. nem viu o tempo passar de tanto embaço…
Gostei, Piccolo. O cara vai rolando, enrolando, sempre a decidir, sempre a desejar. Aquele saco cheio da mesmice, do cinza, da monotonia, da repetição dentro e fora do trabalho. É como se os pensamentos altos dum cidadão moderno fosse registrado. Boa!
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mandou bem. que fluidez, que naturalidade… é isso que chamam ‘stream of conciousness’. pra série melhor do mau humor. falou!