Crônica por Fabiana Tonin
13 de janeiro de 2004
Quem procura, acha, diz o ditado um tanto desgastado e certo. Escolher o assunto para uma crônica pode ser fácil ou até metafísico. Há cronistas famosos, que, capazes de captar o mundo em suas mais delicadas películas, fazem da crônica a arte da simplicidade, da eternização do efêmero. Mesmo quando o mote é uma disputa política ou uma guerra, aqueles que são ilustres sabem a medida para que o mais comum dos assuntos se transmute em pedra lapidada.
Não sou cronista, tampouco escritora, assim, minhas tentativas beiram ao desagravo da língua portuguesa e talvez insultem as divindades literárias. De qualquer forma, sou teimosa e insisto que posso fazer algo de bom com uma conversa de cantina, um cachorro no gramado ou um cliente engraçado atendido por minha máscara de burocrata. Quem sabe um dia, tantos motes rendam um filete de razoável literatura para folhetim ou qualquer rodapé por aí, ou então, diversão às aqueles que sabem que nem só às coisas nobres se devota essa última Flor do Lácio…
Vou catando (como ia fazendo um moça numa letra do Chico) as migalhas de poesia ou mesmo de sombras à toa que encontro caminhos e vias afora. Por exemplo, no meu caminho pela manhã, vou pensando em mil pequenas coisas que podem se tornar crônicas. E são tão belas que não merecem a pequenez que lhes posso dar, caso as torne (ou as reduza, mais provavelmente) a coisas escritas, insossas, meramente codificadas por letras em fila indiana. Então, hoje me abandono a simples enumeração (às vezes, desejaria ter algo que, imediatamente, cristalizasse meus pensamentos e conservasse frases que imagino boas), a um ditado bobo dessas pedras e plumas entre meus passos.
Quando atravesso a primeira avenida, a enorme, a qual desenboca na universidade, há um gramado do qual desvio. Na ida. Na volta, atravesso-o, como se fosse purificação por ali passar. Depois vem o caminho propriamente, secamente, dito. Há um posto de gasolina, o Mc?Donalds e uma floricultura magnífica com estufas e árvores indecifráveis. O céu de hoje tem uma névoa cinzenta e pesada sobre uma camada amarelecida de luz, de derramamento cor-de-rosa , um céu do século XVIII. E tudo mais, carros, ônibus (engraçadinhos buzinando e dizendo “Bom dia”), lojas de peças, material para construção, uma clínica veterinária, tudo tão pouco tingido de poesia, tão nu de efeitos líricos; tudo remetendo ao fumacento século XX. Estamos nele? Nas cinzas desse século que se enterra? Não sei. Durante o café, pensei nas estrelas porque estava escuro e não fiz divagações escatológicas. Admirei as estrelas da janela da cozinha cheirando a manta adormecida e tentei vê-las como da última vez, na primeira noite em que as chamei pelos nomes. Foi por causa de um homem que mas mostrou e, sem medo, me visitou através delas, me fazendo enxergar suas rutilantes imagens de gregos. Havia Órion e seu escorpião ? para onde fugiam naquela noite?
Agora é manhã e só há sombra de sol, as lembranças dormem. Nem homens, nem escorpiões codificados em belezas poéticas. No chão, um pássaro explode estatelado e só me permite decifrá-lopelas suas asas intactas, abertas para um grande, interminável vôo. Coisas além, sem cheiro, sem corpo. Na última esquina, um garoto me olha e não posso olhá-lo, tal a luz de seu sorriso. Falta coragem. Há mais adiante uma loja e dois vestidos brancos. Um dia, caso me apaixone, vou comprar um vestido azul ? claro para passar o Reveillón. Esse ano, será azul-marinho ou bordô.
Vem o ônibus. Uma hora de leitura e todas as idéias boas são solapadas pelo rugido da estrada. Escondo a capa da história e os olhos daqueles mais curiosos. Sou alguém que até sonha entre um barulho e outro. Ao chegar ao meu destino, mais árvores, dessa vez, puras, simples e cheirando a passado tranqüilo. Subo até à igreja e oro pela paz. Amanhã é o último dia do ano e preciso estar bem, embora o vestido e alma estejam escuros. Lembro-me de que preciso ir ao médico, de que há muito trabalho. Lembro-me de tantos assuntos, botões esparsos. E já não lembro por que comecei esta crônica. Ou bem, ela não tem assunto, como nossa primavera às vezes não tem flores ou como esse dia que não tem bem o sol até o final. No fundo, as coisas e as não-coisas vão bordando pensamentos e derrubando franjas, gritos , sem pedir licença à solidão dos homens; elas vão se fazendo por sí sós. Tal qual meu caminho toda manhã, tal qual a vida toda manhã.
Titulo: Assunto para crônica
Autor: Fabiana Tonin
Gênero: Crônica
Data de publicação: 13 de janeiro de 2004
Resumo: Quem procura, acha…
muitom interesante esta cronica mas num me ajudou.To sem ideia e preciso de uma em menos de 24 horas.socorro bjs
adorei esta cronica ,porque realmenye quem procura acah
porra que merda nao o explica nada
Raras sao as pessoas que consegem unir modestiamente, embora nao precise, a beleza poética digna de versos pertencentes a Vinicius de Moraes; à sabedoria capaz de refletir sobre as experiências - empíricas ou nao- e sobre as observaçoes de detalhes interessantes, embora considerados insignificantes e dificilmente reparados. Esta uniao que torna essa mulher tao peculiar. Esta uniao que a faz, nao apenas uma professora de matérias escolares, mas sim uma tutora para a vida, aquela que nao formará mecanicamente apenas alunos frivolos, e sim homens e mulheres questionadores e maravilhados com a aventura do saber, com vida.
De arrepiar!Parabéns!
Texto excelente, leve, lírico, suave, gostoso. E há aqueles que dizem que não há mais nada a ser feito ou criado. Ah, há tantas coisas… Parabéns!
Fabiana, se isso for o texto de alguém que, segundo você, “estragaria” a nossa língua, desejo que mais pessoas pessoas a destruam! Belíssimo texto. Ainda mais para se ler de manhã e enxergar o dia de uma nova forma.
Excelente estréia, exemplo extraordinário entre “diversão” e “literatura”, com um sensível olhar feminino, de uma devota “apreciadora dessa última Flor do Lácio”. Parabéns.
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vc conseguiriam me mandar uma de que num seja de um ecritor?