Crônica por Eduardo Socha
9 de maio de 2005
Discutir sobre o tempo livre das pessoas transformou-se em lengalenga obrigatório dos manuais de auto-ajuda, essa peste editorial que não para de crescer. Tanto que às vezes permanecemos distantes do assunto, com certo receio de ingressar naquele mesmo terreno onde habitam as futilidades cruéis do Dr. Lair Ribeiro e de seus colegas de ofício.
Por outro lado, discussões sérias sobre o tema do tempo livre ? expressão que designa o ócio, por oposição ao negócio, e que hoje se apresenta como suposto benefício burguês, decorrente da automação de processos e serviços, da melhoria das condições de vida, etc. ? essas discussões quase sempre ficam restritas aos círculos acadêmicos, principalmente àqueles que encontram na vulgata marxista a compreensão definitiva da realidade. É difícil achar um meio-termo.
Até porque tem gente que diz que tempo livre, na verdade, não existe. Encontrei, meio que por acaso, um pequeno e lúcido artigo (“Tempo Livre”) do alemão Theodor Adorno [1903-1969], que fala sobre isso. De certa maneira, foi como achar esse meio-termo. Em especial, fala da cultura dos hobbies, das atividades para “matar o tempo”, criadas para aqueles momentos (raros ou não) em que as pessoas não estão trabalhando.
A idéia principal é que as mesmas formas de comportamento do trabalho invadem o espaço ideal para a descontração e para o divertimento. Na ideologia de hiper-valorização do trabalho, o tempo livre aparece quase como uma agressão, um mal que deve ser controlado. A saída é encarar o tempo livre como um apêndice do trabalho; sua função seria apenas o de “restaurar as forças”, dar uma folga curta para que o sujeito se concentre melhor no trabalho mais tarde.
Daí a necessidade de que até mesmo isso seja padronizado e organizado (liberdade quase imposta, digamos), através do hobby, dos programas de TV e mesmo das viagens. Você é massacrado se não tiver um hobby (ocupação determinada no tempo livre), se não acompanhar a novela ou o Big Brother (ter um assunto “descontraído” para falar durante o trabalho, para não se sentir excluído), ou se for à praia de férias e não voltar bronzeado (e foi lá fazer o quê, então, kariboka?!). O tempo livre, afinal, integra-se à lógica do mercado.
Aqueles que supostamente agem por vontade própria dificilmente percebem que essa vontade é condicionada por aquilo mesmo que não querem encontrar no horário de trabalho. Ou, no caso oposto, as pessoas conseguem fazer tão pouco durante o período fora do trabalho, que acabam se julgando “improdutivas”, limitadas, superficiais, perdendo até mesmo o prazer do tempo livre.
Conheço pessoas que ficaram entediadas, após uma semana de férias. Desejavam retornar logo para o trabalho, e não sabiam exatamente o porquê. Talvez dissessem a si mesmos: “que tédio… lá, pelo menos, sou útil”. Voltando para o trabalho, manifestavam logo seu cansaço, com uma leve pontinha de orgulho: “cara, que estresse, essa semana tá um sufoco, um horror…”
E, no fim, desesperadas e entediadas pela perda de autonomia da própria vontade (ou pela submissão à heteronomia do mercado de trabalho, tanto faz), recorriam a palestras de motivação, aos redutos de consolo, ao deslumbrado enaltecimento da carreira. Ou ainda, o que é pior, aos ensinamentos do manuais de auto-ajuda.
Titulo: Auto-ajuda e tempo livre
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Crônica
Data de publicação: 9 de maio de 2005
Resumo: Notas sobre o tempo livre
Bad Behavior has blocked 10 access attempts in the last 7 days.
Depois do silêncio, aquilo que melhor exprime o inexplicável é a música.