Borges e Mariano no espelho

Crônica por Eduardo Socha
13 de março de 2003

2_esocha_g0hg7y
Um espelho portenho

Por acaso, entro na Galería del Este em Buenos Aires. Sento à mesa de um escuso café, onde não se vê ninguém a não ser a garçonete entediada e o proprietário que acompanha as notícias da TV enquanto lustra inutilmente um copo de cerveja atrás do balcão. Ao lado, a vitrine da Librería La Ciudad expõe um retrato de Borges conversando no interior da loja. A livraria agora também está vazia. Não há ninguém no café nem na livraria onde Borges, já lançado aos vaticínios da cegueira, ditava alguns dos versos que mais tarde se ressaltariam em qualquer roda literária. Bem próximo, um mural sugere as caminhadas de Borges pelas imediações. “As ruas de Buenos Aires/ já são minhas entranhas”, tal era o fervor visceral do escritor pela cidade portenha. Olho para os lados, a vacuidade daquele cenário incomoda. Ninguém olha para Borges. Pago o café e retorno à calle Florida, rua consagrada na rota turística.

Famílias dormindo sob marquises, coletando restos em lixeiras, mendigando sobrevivência. A crise fervilha. Não são pessoas calejadas por aquela contínua miséria das ruas, trata-se de uma adaptação recente ao colapso social argentino. São pais de família, até ontem empregados, que hoje se acomodam em becos. Outros ainda puderam recorrer a subempregos. Na mesma Florida, um certo Mariano interrompe meu trajeto desnorteado de turista. É um pregonero, “pescador” de turistas para lojas de couro e souvernirs. Ao saber que vim do Brasil, Mariano atropela em portunhol: “ô brasileiro, viajei o Brasil todo de graça, naqueles ônibus com ar-condicionado”. Dou corda para a conversa. “Sabe como eu conseguia? Era só usar a cabeça. Olha só, isso aqui ó não serve só pra colocar chapéu. Eu ia falar direto com o dono da empresa, eu insistia. Dizia que o Brasil é um país grande, que tem as mulheres e lugares mais bonitos do mundo, o melhor futebol do mundo, que tudo era grande, vocês adoram ser grandes, o dono também gostava e acabava me dando um passe pra viajar em qualquer ônibus da empresa”. Mariano vale um capítulo. Mas pergunto sobre a crise. “Trabalhava com engenharia, de repente o escritório quebrou, minhas economias passaram a valer quase nada, e tento arranjar algum troco com a comissão da loja… bueno, não quer dar uma olhada nos casacos?” Mais tarde, no café Tortoni, um importante ateneu literário do passado, papeio com um desolado gerente da Aerolíneas. Ele declara: “o país não merece o que aconteceu, veja esta cidade”. Realmente, há uma dissonância entre o complexo arquitetônico imponente, funcional, preservado e a nova ocupação daquele espaço. Dos pequenos furtos de La Boca às lojas vazias da Recoleta, sente-se o peso da crise.

Mas a cidade marcha, resiste orgulhosa, não é pura catástrofe. Estrangeiros ainda perseguem casais de tango pelas alamedas e gritam bis “otrrrra, otrrrra”. Enamorados trocam afagos incipientes no banco de um parque. Engravatados andam em passo dobrado, celulares nas mãos. O Teatro Colón, lotado. O River Plate dá goleada. Na banca, lê-se “o que podemos esperar de Lula?”. E o som da milonga vagueia perdido no Paseo La Plaza. Há um mistério imanente, indecifrável nas ruas esguias de Monserrat. Então vejo Borges e Mariano no mesmo espelho, distanciados apenas pelas contingências de algumas décadas. Pergunto o que é Buenos Aires e a borgeana irrompe o devaneio: “é a outra rua, a que não pisei nunca, é o secreto centro dos quarteirões, os pátios últimos … é o que se perdeu e o que será … o bairro que não é teu nem meu, o que ignoramos e amamos”.


Titulo: Borges e Mariano no espelho

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Crônica

Data de publicação: 13 de março de 2003

Resumo:

Rápidas notas de uma passagem pela cidade portenha

,

1 Comentário

  1. Francis Newton disse:

    Texto primoroso!

Deixe seu Comentário

Anti-Spam Protection by WP-SpamFree

Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

Bad Behavior has blocked 12 access attempts in the last 7 days.