Crônica por Thiago Mom
30 de janeiro de 2006
“I?m wishing on a star/to follow where you are/I?m wishing on a dream/to follow what it means” numa fita cassete de festa americana. Sou desse tempo. Aline também. Demorei três meses pra encarar o despenhadeiro entre sofás e falar com ela, convidar pra dançar. The cover girls tocando e a minha confiança, impermeabilizada por alguns copos descartáveis de cuba, garantia uma travessia tranqüila. Até que alguém me ultrapassou e colou em Aline primeiro. Na minha frente, ninguém mais disponível; atrás, uma metade de sala vazia. Indiana Jones, naquela ponte de madeira em “Templo da perdição”, estava em situação menos desanimadora.
Um dia consegui, dançamos. Nem beijei, mas bolinei e ganhei umas bafejadas no ouvido. “Wishing on a star” embalou o meu nirvana. Eu tinha 13 anos e, poucos dias antes, um amigo tinha ofendido a mim e outros obcecados por videogame garantindo que existia vida além das persianas e que “Super Mário World” era inferior a mulheres. A Inquisição se reuniu e nós estávamos prestes a queimar aquele Galileu adolescente na fogueira, mas então aconteceu a festa e aconteceu Aline. Mulher era o que havia. Manipular aquele italiano narigudo em mundos de canos e tartarugas era coisa de nerds ainda não apresentados ao novo mundo.
Uma vez meu irmão, na urgência de um sparring antiestresse, chutou um filhote de dálmata recém-mudado lá pra casa. Acertou as bolas do cachorro, motivando uma fuga pra baixo do sofá e uma permanência por lá, sob protesto, de quatro dias. Rações e cafunés eram recebidos com as orelhas abaixadas e um olhar amuado. Aline não me deixou muito diferente com as coleções 1993 e 1994 de nãos retumbantes que me deu. O amor é simplesmente uma onda alta sobre as ondas, escreveu Pablo Neruda, e ali estava o meu primeiro caldo amoroso ? como também inaugurado o cassino da vida de solteiro prolongada e atribulada que seguiria.
Naquela época Guilherme de Pádua, jurando que ninguém ia notar, pediu ajuda da mulher e matou Daniella Perez, levando “Wishing on a star” a desaparecer das fitas. Bem, de qualquer maneira a trilha de Bira e Yasmin em “De corpo e alma” não fazia milagres e eu vinha trocando as festas americanas por boates ? matinês das 19 às 23 horas de domingo, é verdade, mas boates. Devo à Aline meu apego a baladas e às baladas meu desprendimento de Aline. Dificilmente nos esbarramos desde então, a última vez foi mês passado. Cumprimentos desanuviados, sem nenhum significado nem mesmo da minha parte. Uma onda alta sobre as ondas que perdeu força, virou marola e hoje é insuficiente pra animar o surfe de um playmobil.
Titulo: Caldo
Autor: Thiago Mom
Gênero: Crônica
Data de publicação: 30 de janeiro de 2006
Resumo: Da série “chapuletadas femininas”
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hahaha, a balada de todos nós play-boy-mobil…