Crônica por Thiago Mom
14 de março de 2006
Fala, aspirante a jornalista americano. Parabéns pelas fotos premiadas. E muito interessante tua conversa na praia ? tua experiência “Brokeback Beach?” ? com “um dos 50 melhores de fotografia hoje do mundo”. Ele é teu novo surfing buddy, versão praiana de parceiro de pesca do filme? Ná, falando sério, deixando de lado as frivolidades profissionais, e aquela disciplina informal de “mulherada comparada” que tu ia fazer? É verdade que qualquer americana esteticamente razoável equivale, em dificuldade, a uma patricinha florianopolitana safra 1987?
Meu velho, tu pediu notícias pra galera da nossa faculdade mas, como tu sabe, cometi o pecado tático de me formar no tempo certo e ? assim como tu, depois de apenas vinte anos aproveitando ? deixar Florianópolis. Só que mesmo não sendo mais da sala, acordei num dia Rubens Edwald Filho (segundo amigo meu, “uma comadre que ovula no dia do Oscar”) e te mando as novidades. Fiquei tão sensacional num vestido rosa-retrô no Bloco dos Sujos, no carnaval da ilha, que por pouco não me revelaram e não fui parar no próximo clipe do MC Marcinho. MC Marcinho é autor dos versos “falei pro DJ/pra fazer diferente/botar chapa quente/pra gente dançar”, de "Ela só pensa em beijar", a música mais tocada de fevereiro até semana que vem ? um clássico.
Mas foi só. Não recorrendo a ficção ou a carnavais anteriores não tenho nenhuma história pirotécnica e candidata a melhor baixaria 2006, como tu pediu pra galera da lista de e-mail contar. Na praia da Ferrugem, é verdade, uma dúzia de malucas recebeu o carro meu e de uns amigos aos berros de "pintos, pintos", em vez de “lindos, lindos”, mas a fila buzinou e o momento sexytime ficou só por aquilo, mesmo.
No mais, assim como tu sobreviveu ao frio norte-americano (quase 80 cm de neve em Nova York um dia, fiquei sabendo) eu tenho sobrevivido a São Paulo, no lugar das roupas de inverno alguns sofismas. Não paro de tentar me convencer, por exemplo, de que nenhuma praia e remanso de espírito teriam sido melhores, ontem, que a Bienal do livro (apesar dos 190 mil cotovelos presentes) e da peça de teatro que eu vi depois ? com músicas que foram de “Can you feel it?” a “Atoladinha”. “Atoladinha” é um funk que fala liricamente de areia e metelanças na praia da Barra; é a última música de Tati Quebra Barraco, também autora de “67 patinete” e uma das influências de MC Marcinho.
Falar em Barra, Jack bongô, Havaí, surf, zen budismo & sons para sexo suave Johnson vai tocar no Rio e em São Paulo e eu tentar ver o show lá, não aqui, que mesmo sofismada São Paulo é muito feiosa e saudade da praia tem limite. O exército andou invadindo as ruas cariocas em busca de onze armas roubadas mas não encontraram nada e, um guri de 16 anos morto e alguns “pedala Robinho” na população depois, tão voltando pro quartel. Tá sabendo disso por aí? Se não estiver de ressaca das caipirinhas do carnaval, nosso estimado Larry Rother, do “New York Times”, talvez esteja publicando a respeito. Um abração tupiniquim, incomode à vontade com updates daí ? do amigo, Thiago.
Titulo: Carta prum amigo nos EUA
Autor: Thiago Mom
Gênero: Crônica
Data de publicação: 14 de março de 2006
Resumo: Uma compilação de bobagens
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Thiago,
Costumo gostar dos seus textos, principalmente da sociologia da balada e dos episódios com o sexo oposto. Mas não curti esta carta, talvez por ser paulista e não saber picas sobres Floripa e seu carnaval (aliás, carnaval com funk de trilha sonora é uma das coisas mais próximas ao inferno que eu posso conceber) ou por ter estado em NY recentemente e saber que o frio tem suas compensações. A mesma coisa com Sampa, que também acho feia de doer, mas que sempre me proporcionou muitas alegrias. E nem preciso dizer que Bienal do Livro e a peça que toca “Atoladinha” são de foder, hein velho ?
Grande abraço