Crônica por Fabiana Tonin
6 de junho de 2005
Como caracóis quebrados, a gente leva as casas por onde passa e deixa a alma em manchas de lama que pesam na existência…Por isso, vou falar daquele casa.Era simpática. Quem chegava era recebido pelo piso vermelho-terra, entrada grande sem flor nem gramado. Depois, qual tapete, vinha o xadrez psicodélico, não-ortodoxo em preto e amarelo ? estampa estonteante que adentrava pela sala. Havia também a garagem ampla que conheceu em dias de glória o Gigio, carro da Fabiana, o uninho que veio depois e também o gol da Josie. Quanta gente, quanta coisa passando por ali. Desde a primeira olhada, há uns bons quatro anos, eu passando pela rua, ficando e fincando os olhos por ali ? a gente então morava na casa da D. Nair, um pouco mais à frente. Embora tenhamos ficado juntas desde então, eu , a Flavinha, a Josie e a Fabiana queríamos mudar e eis a casinha clara, tímida, que se apresentava tão perto. A outra, a casa grande, também tinha sido nossa, mas, pra mim, em especial, sempre fora provisória, mudei de quarto, mudamos de colegas, muito movimento na família do Peixe.Mas, ganhei várias permanências: o cognome Flor, as minhas meninas, a minha irmã postiça. E apesar de toda a âncora e o peso das rupturas, mudamos, sem a Fabiana que estava fora, na França.
O dia da mudança foi tumultuado. Um dia antes, eu e a Flavinha, em nossa cumplicidade que adorava dias de faxina e arrumação (sem contar os dias de “encapação” de caderno), fomos lavar a casa toda. Nos parecia pequena, a gente achava que não ia caber com todas as coisas e tralhas, era colorida demais com o banheiro explodindo em rosa e a cozinha repleta de verde. E sempre o medo do que a Fabiana ia dizer. Enfim, mudamos, nós três. Além de meu pai, minha mãe, meu irmão, que ajudaram e mudaram junto nos palpites e nos acontecimentos. Isso era 2001, ano que saí do banco, larguei a bata de burocrata e passei para a de professorinha, mudei o cabelo, sei mais o que… E mudamos todas e tudo. A casinha clara, de quintal grande e com muito mato e gatos, nos acolheu bem. Os domingos eram claros e extravasavam a janela com um sol quente de manhã de praia. Era bom, muito bom tudo lá. Nossa concha de caracol quase se acomodou…
Cada quarto criou sua cara e a gente se criou enquanto adultas, mulheres. Eu e Flavinha no da frente ? com direito à cantoria da igreja e barulhos do vizinho casmurro (sem qualquer charme machadiano); Fá e Josie no outro, maior, mais sério e contido. O nosso tinha mural, desenho no guarda-roupa e foi ganhando estante cheia de livros e cds, quadros da mãe da Flavinha, o meu gato preto, o Franz, menininhas da Flá. Tudo se compondo devagar, durante esses anos, um mosaico em que cada pecinha tinha a sua cor e sua cintilação. Nesse composé, cada uma com sua luz e seu farfalhar. Um dia, desenhei cada uma de nós: a Flavinha de vermelho e de mochila, a Fá de blusa listrada e sapato fashion, a Josie de blusinha amarela e saia de Poá, eu, óculos e camisola. Êta frase de vó, mas nada melhor: “que tempo bom”. Muitos cafés, jantas, finais de semana com cinema e também algumas brigas bobas sobre o enredo tosco do filme brasileiro, os panos de chão ou pegas mais inofensivos. Mas a gente se amava. E por isso, um dia, tudo começou a explodir e, num final de semana, a Fá e a Josie foram embora. Eu e a Flavinha estávamos bravas, mais tristes, na verdade. Fizemos cara de mau, coração partido, olhos pesados. Depois, poucos encontros, nenhum recado. Ficou o quarto vazio, o espaço das risadas, das broncas, da presença de duas criaturas que amamos muito. E as fotos no mural.
E era preciso seguir: veio a Lidiany, menina quase bacana, mas difícil. Essa ficou pouco, arrumou vários namorados, saiu aos trancos e barrancos, quebrou o salto e rodou a baiana. Um pouco antes da avalanche, chegou a nossa primeira última paz: a Alessandra, colega de faculdade, doce, incrivelmente leve, uma bênção com a qual a gente já não contava depois de tantos arranhões. E tudo tinha um cheiro bom de casa e família, de novo. Tínhamos as comidinhas, os jantares, as noites infatigáveis de Big Brother e novela das oito. Nessa época, também, apareceu o Alê, a minha bênção particular. E depois, a Bruna, nossa segunda paz, nossa segunda boa surpresa. No começo, um tantinho de acertos, depois, muita risada, muita sensação boa de cumplicidade renascida. A república do Peixe na sua quarta roupagem ia muito bem.
De repente, ficamos todas ali, penduradas no mural, numa parede chamada memória. Eis a odisséia da minha casa. Foram lá meus sete anos de graduação na Unicamp, meus tantos (nem tanto assim…) ex-namorados e casos, meus choramingos, a perda do meu tio, meu novo e leve amor, o mestrado da Flavinha, depois o doutorado, o nascimento da Júlia, afilhada dela (e também um pouquinho de cada uma de nós). Foi lá também a formatura da Fá, os lanches da Josie, as sessões de cinema “cabeça”, as escovas na franja da Ale, a chegada da Isabela, sobrinha da Bruna, as conversas sobre a Luisa, afilhada da Ale . Era lá que o mural da sala transbordava com a história que a gente tinha construído na faculdade, com os nossos amigos que apareceram nas pizzadas e almoços da Flavinha, ou melhor ainda, pra papear ao léu : Hugo, nosso querido antropólogo que fugiu da História (impagável), Fernando, meu colega de profissão e de angústias (mais introspectivo, mas sempre tão carinhoso), a Juce, a Aline, o Ricardo e seu cabelo rebelde, e até as visitas furtivas do Vicente e da Vanessa, amigos já longínquos então. Teve até a reunião final, a que, além dessa galera, vieram o Paulo, o Marcelo, o Marcos, o Santos, meu Deus, quanta gente, quantos gostos bons de casa da gente cheia. Tanta lembrança, tanta história, até por um assalto passamos. Muito pão de queijo, café, e nos últimos tempos, academia, curso sobre Shakespeare, cinema no shopping, compras de livros na Fnac, sessão encapa-tudo, muito mp3 recolhendo pérolas com a série de cds românticos “impagáveis” da Flavinha.
Mas, há pouco, como um bom livro ou um bom vinho, a boa casa teve seu arremate, o mural estancou. O Peixe que dá nome ainda está à porta, impassível quase. Há pouco, numa série de pequenas tragédias, foi a hora de ir. De tirar a escova do armário do banheiro, dizer adeus às canecas e aos peixes da Flavinha, às fotos, às estantes mescladas de livros e das nossas ilíadas pessoais. Não tem mais cheiro de pão de queijo, de café fresco, nem de macarrão e molho. Não tem mais o barulho do aquário, nem os cds de trilhas sonoras, nem o jeito bem comportado do quarto da Ale e da Bruna. Desmontamos tudo, eu e a Flá, desmontadas; pegamos as roupas, os livros, as músicas e alguns cacos do mosaico. Proust celebraria a memória com as madeleines, nós, com cada pequeno farelo dessa grande casa e suas partidas. Assim, o vinho bom foi degustado, o bom livro escrito, o mural, completado. E cada uma de nós, personagens agora de outras histórias e outras casas, vagamos sem ter ainda achado o caminho. Cada qual com sua casca, mas sem um pouco de si, porque toda sombra, toda lembrança nos imerge naquele nosso cantinho, que, na nossa memória, está lá, intocável, pronto pra ser visitado, com direito à risada da Fá, da Josie e ao encanto que só nós, habitantes da casa do Peixe, conhecemos. Eis o mistério dos bichos que carregam sua casa e cuja dor mais ninguém sabe dizer…
Titulo: Casa do peixe
Autor: Fabiana Tonin
Gênero: Crônica
Data de publicação: 6 de junho de 2005
Resumo: De volta a essa casa de palavras, um pouquinho da casa que deixei…
Muito belo! É como um ‘buraco da fechadura’ de parte de sua intimidade.
Oi Florzinha !!! Bom, nem preciso dizer que amei e achei muito lindo esse texto que fala da famosa e divertida República do Peixe. E tenho que dizer que fico muito feliz de ter participado, de uma certa maneira, com minhas estadias, dessa casa maravilhosa e ter conhecido pessoas especias como vc e a Alessandra. Com vc eu já sou mais chegada e tomei a liberdade de te ter como minha amiga tb. Uma pessoa muito especial e que eu admiro muito.
Te adoro !!!
Bjinhos
Leo
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“Eis o mistério dos bichos que carregam sua casa” - observação, dentre muitas, detalhada e sensível, confissão com cheiro de ficção literária.