Castigo na Bienal

Crônica por Eduardo Socha
3 de novembro de 2003

Reconheço, de antemão, a falta de originalidade e o aparvalhamento do seguinte juízo: o excesso de coisas para se fazer em São Paulo representa às vezes castigo e frustração. Continuo o argumento, mesmo assim. É castigo, porque nos sentimos implicitamente obrigados a visitar a última exposição do Gaudí, a assistir à penca de películas da mostra de cinema, a não perder a peça do Zé Celso, o concerto da Osesp, etc. Tudo se resume no “se é preciso viver neste apocalipse urbano, que se aproveite pelo menos sua contrapartida cultural”. E como se sabe muito bem que, apesar de todo empenho, fica impossível ver tudo (por inúmeras questõe$, além de tempo), cria-se então um sentimento de culpa, de frustração, de dever não cumprido. Por outro lado, mesmo que o sujeito, tendo cacife, decida percorrer um bom trecho da marotona cultural paulistana, certamente vai reclamar da falta de tempo para leitura e para o necessário dolce far niente. Não se pode ler tranquilamente, com uma retrospectiva do Fellini, ali do lado. Ou seja, vive-se inexoravelmente o paradoxo da frustração. O mais óbvio seria fugir desta sandice e criar coelhos no interior (como fez Raduan Nassar), ou abandonar tudo e dedicar-se à literatura numa fazenda em Campinas (Hilda Hilst). Mas, vá lá, nem todo mundo dispõe de tanta coragem. O jeito, por enquanto, é ir abraçando o diabo e, de preferência, seu assessor cultural.

***

Fui com uma amiga à 5a Bienal de Arquitetura (que terminou neste domingo), moralmente arrastado pelas razões supra-citadas (pois o pior é ter que ouvir depois: “O quê? Perdeu a Bienal?!? Você tá louco?!! …” ? infelizmente são poucos os que atingiram certo grau de maturidade para responder com orgulho: “Sim, perdi a Bienal e estou positivamente feliz com isso”). Três coisas me chamaram a atenção na visita: a maquete de Tóquio (e seu curioso vídeo high-tech), o imenso mapa de São Paulo a partir de fotos de satélite e, por fim, o bate-papo sobre cinema com esta amiga que, como eu, nunca estudou arquitetura.

O rigor detalhista da maquete japonesa impressionava de tal modo que seus contornos e relevos poderiam ser usados em episódios futuros do Godzilla. Na sala adjacente, projetava-se um filme com tomadas aéreas da cidade, captadas através de uma câmera cujo zoom permitia observar as feições das pessoas dentro dos prédios. Coisa de japonês. Não sei se aquela exuberância visual tinha a ver com os novos modelos de arquitetura ou urbanismo, mas deu para perceber que o real nunca vai chegar a iene.

No térreo, instalado sobre o chão, um mapa de São Paulo em grande escala atraía a maior parte dos visitantes que, provavelmente, como eu, nunca estudou arquitetura. Era possível caminhar sobre as fotos de satélite, identificar nelas a casa de alguém, notar as discrepâncias socias da metrópole (dos bairros bem planejados ao descaso na favelização), e até descobrir rotas alternativas para escapar do trânsito. Transformou-se na atividade lúdica da Bienal. Adultos passeavam sobre o mapa, inabaláveis e altivos, as mãos seguras atrás como se dotados de uma capacidade divina, atravessando os bairros em poucos segundos (utopia do transporte). Um senhor com ar irriquieto perguntava “já achou a Rebouças?” e depois “ah tá ali, e a Radial?”. Algumas crianças ficavam até embaraçadas de brincar junto.

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Na qualidade de urbanista frustrado, lamentei a ausência de uma seção que discutisse a fiação elétrica aérea das cidades, os postes de luz e afins, e a consequente importância do cabeamento subterrêneo. É um assunto que alimentaria várias crônicas. Atribuo grande parcela da poluição visual urbana à fiação elétrica (e também à falta de retidão nas guias das calçadas - tudo isso bem pior que pixação). Creio porém que infelizmente os urbanistas não compartilham desta mesma inquietude. Tampouco minha amiga, já que não se animou muito com uma eventual conversa sobre esta peleja urbanística. Antes tivéssemos estudado arquitetura… Saímos da Bienal (tarefa cumprida) falando sobre os filmes da Mostra, sobre os vistos e os que mereciam ser vistos. Não se pode perder tempo com filmes ruins, revela nossa admirável conclusão. Mas como saber se aquele iraniano é bom ou ruim? Não existe critério seguro. Eis o implacável dilema daquela contrapartida: há sempre a iminência de uma frustração.


Titulo: Castigo na Bienal

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Crônica

Data de publicação: 3 de novembro de 2003

Resumo:

Notas sobre um paradoxo paulistano

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2 Comentários

  1. Mário disse:

    Opa, reli o comentário e me expressei mal. Eu é que fui repetitivo, não o texto. :^)

  2. Mário disse:

    Mais uma vez, sutil, doce, reflexivo e leve. Sendo repetitivo, o texto transpira a vida de um morador de grandes cidades. Talvez não nos falte coragem para fugir delas, mas uma vontade real e avassaladora que nos mova daqui. Ficamos por sermos atraídos por todos esses eventos… e a frustração vem junto. Perfeito! Gostei muito, também, dos comentários breves sobre a Bienal de Arquitetural.

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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