Chegou a hora

Crônica por Thiago Mom
7 de junho de 2005

Chegou a hora de dizer o que eu penso sobre José Saramago. Dizer isso no começo de um texto é como convidar uns amigos pra dar uma volta no seu bote inflável e começar a esfaquear a câmara principal. Pelo menos metade dos caras já estão na água a essa hora. Se imagine curtindo um texto d'A Patada e de repente esbarrando com uma primeira frase criminosa dessas.

Mas foi esse o abrir de cortinas dos parágrafos que eu mais queria ter escrito até hoje. Estava numa revista publicada, acho, no final de 2004, revista de circulação específica mas que mesmo assim não revelo qual é, eu sei lá se o autor não acharia o meu elogio meio capcioso. “Chegou a hora” é assustador. Quando li essa convocação pro juízo final imaginei prédios ruindo, gente se escondendo nos bueiros, Robertos Jeffersons saindo dos bueiros etc. Por sorte, o tribunal divino se resumia a uma avaliação literária, ainda por cima a avaliação de um escritor só. O fim dos tempos talvez ainda não fosse dessa vez. Mas Saramago, coitado, nunca mais seria o mesmo.

Era hilário. Com um humor pra poucos (no Brasil, qualquer humor que não seja tropeçar e derrubar a bandeja do garçom é pra poucos. Pelas estatísticas mais recentes, temos 10,6% de analfabetos, 30% de analfabetos funcionais e outros 37% que só conseguem entender textos curtos. Entre os 22,4% restantes temos que contar ainda os verdadeiros analfabetos, que segundo Mário Quintana são os que sabem ler mas não lêem), o autor achincalhava a preferência de Saramago por seus parágrafos intermináveis, seus diálogos entre vírgulas e suas digressões nunca menores que os parênteses que eu usei aqui em cima. Com os parágrafos sempre daquele tamanho, argumentava, os romances ficam visualmente burocráticos. “Imaginem uma exposição em que todas as obras de artes são parecidas”, sofismou.

Mas o trecho mais perspicaz era aquele em que o autor contava sua experiência de leitor do Nobel português. Já tinha ganhado de presente e lido “O conto da ilha desconhecida” (64 páginas), além de ter folhado (!) “O Evangelho segundo Jesus Cristo” na livraria. Claro que isso só podia ser piada. Ele devia entender de Saramago no mínimo o que Harold Bloom entende de Shakespeare, tendo tragado pelo menos cinco vezes todos os seus livros, a partir do que resolveu arriscar um ensaio no estilo “o que um leitor petulante e confuso diria de Saramago”. E funcionou, sutil e sofisticado como um assassino hitchcockiano. Sinceramente, é nessas horas que dá vontade de pendurar o teclado.


Titulo: Chegou a hora

Autor: Thiago Mom

Gênero: Crônica

Data de publicação: 7 de junho de 2005

Resumo:

Sutil e sofisticado como um assassino hitchcockiano, um cronista disse que tinha “chegado a hora” de ele dizer o que pensava de Saramago.

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