Cidades de Deus

Crônica por Eduardo Socha
9 de fevereiro de 2004

No séc. V, a conquista de Roma pelos visigodos acentua o processo de decadência do Império. Como resposta à crítica dos pagãos, que vinculavam o declínio à expansão política do cristianismo, Santo Agostinho engendra a “Cidade de Deus”, discurso sobre a história universal e no qual laços essenciais da Igreja e do Império são desmistificados. Para os cidadãos “eleitos” da Cidade de Deus, calamidades como a invasão de Roma não afetam os preceitos de justiça na “vida eterna”; a contingência temporal está subordinada à espiritual. Agostinho tenta demonstrar que as desgraças romanas começaram bem antes da cristandade e que, na Cidade de Deus, a justiça defeituosa dos homens é remediada pela graça divina.

Corte para o Rio, anos 60. O autoritarismo ditatorial condena uma parcela da população ao isolamento em uma região erma da cidade. Dão-lhe o nome, por sórdida ironia, “Cidade de Deus”. Décadas mais tarde, um escritor relata de dentro a história de formação da comunidade. A adaptação para o cinema, mais que honesta e eficaz, viria em pouco tempo. Só pela antítese e subversão dos significados, a história já valeria à pena. Enquanto a Cidade de Deus agostiniana surge como consolo à injustiça humana, a Cidade de Deus retratada no livro/filme nasce da própria injustiça.

Filme primoroso, e aí estão as 4 indicações ao Oscar. Por outro lado, recrudesceu um debate intenso na crítica. A pesquisadora Ivana Bentes parece liderar a massa contrária ao filme, classificando-o como representante da “cosmética da fome” (em alusão à “estética da fome” de Glauber), ou seja, transforma violência e miséria em espetáculo rentável, compatível com padrões hollywoodianos e sem preocupação contextual. Segundo ela, “Cidade de Deus” reforça clichês de violência e de exótica imagem nacional, usando o registro estético “MTV”, pautado pela montagem frenética, ágil, publicitária. Nesse sentido, as indicações ao Oscar apenas confirmariam o modelo.

É claro que a torcida pelas estatuetas, como se fosse final da seleção na Copa, revela nossa mentalidade infeliz de servilismo cultural. Quase um modo de dizer que os índios daqui também querem um naco da festa chique, cara pálida, nem que seja através da exibição caricatural de nossas mazelas. O sucesso de “Central do Brasil” já indicava aquilo que a Academia(!) espera de um filme brasileiro.

Deixando de lado esse aspecto (e o respectivo lobby), é preciso ressaltar seus méritos. Exatamente por adotar uma linguagem audiovisual atraente, que procura alcançar grande público, e por expor a trama de forma didática, perspicaz e, ao contrário do que diz Bentes, muito bem contextualizada, trata-se de uma obra provocativa, trazendo portanto um forte componente de denúncia social.

Detalhes formais de produção, indicações ao Oscar, tudo fica menor diante do recado que deveria ser (e foi) dado. A questão é outra. Pois para esta Cidade de Deus, a contingência temporal mais urgente não está em visigodos de Hollywood.


Titulo: Cidades de Deus

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Crônica

Data de publicação: 9 de fevereiro de 2004

Resumo:

Sobre Oscar e visigodos

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3 Comentários

  1. Mário disse:

    O texto é excelente, pena que eu não tenha assistido o filme para deleite ou crítica.

  2. Alexandre Piccolo disse:

    servilismo cultural” caiu como uma luva.

  3. PH disse:

    Socha, certas(os) críticas(os) precisam de namorados(as), urgentemente. Na falta de ação, estas pessoas optam por criticar em detrimento de fazer algo a altura do objeto/pessoa criticada. Sem querer aprofundar neste aspecto, creio que o Oscar não é uma premiação estética mas de mercado (não que seja a tônica do seu texto, mas o discurso em relação ao servilismo cultural é muito pueril). Novamente, ficando apenas na superficialidade que um comentário permite, Cidade de Deus é de fato um excelente filme, seja do ponto de vista social (que não deve ser o propósito central de um filme comercial, ainda bem), seja no ponto de vista cinematográfico. Muito bom o artigo, parabéns!

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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