Cinco breves lições para políticos virtuosos

Crônica por Eduardo Socha
18 de setembro de 2005

Vai tanta diferença entre o como se vive e o modo por que se deveria viver, que quem se preocupar com o que se deveria fazer em vez do que se faz, aprende antes a ruína própria, do que o modo de se preservar”. Como nos ensina a penetrante máxima de Maquiavel, o mundo, de fato, não é ideal. O político de virtù deve estar preparado para as vicissitudes da fortuna. Abaixo, sintetizo cinco breves lições, deixadas pelos dias recentes:

1) Nunca confie em donos de restaurante. Seja cordial com eles, pergunte pelas crianças, dê tapinha nas costas, elogie o escabeche, mas use pelo menos dois intermediários para canalizar sua propina (considere a devida corretagem no meio do caminho). Evite secretária e motorista, sempre suspeitos numa eventual investigação. Cobre alto, porque o risco é alto. Nada de trocadinho, mensalinho, que isso não é coisa que se faça. Quebre o restaurante, se necessário. Depois de palitar bem os dentes e a ética, culpe o PT pela corrupção no Brasil. Exceção: ter confiança total em donos de pizzaria, onde qualquer investigação merece acabar.

2) Sigilo bancário e telefônico são devaneios de algum jurista, garantias fantasiosas, coisas que na prática não existem. Nem adianta apelar a recursos já batidos, como contas off-shore em paraísos fiscais, celular do cunhado, orelhão da padaria. Hoje em dia, sua vida e suas contas são um livro aberto. Por isso, Severino tinha razão: dinheiro se guarda debaixo do colchão. Para todos os efeitos, durante uma conversa telefônica qualquer, ou mesmo após ter sido notificado de que seu sigilo bancário será quebrado, culpe o PT pela corrupção no Brasil. Ainda que você seja do PT.

3) Tenha sempre um habeas corpus na carteira. No caso de aparecer um doleiro indiscreto, e você não conseguir dissuadí-lo a tempo, siga o roteiro: primeiro, exija foro privilegiado; segundo, culpe o PT pela corrupção no Brasil; terceiro, converse com algum ministro sobre seu momento delicado; quarto, saque seu habeas corpus express e o entregue antes mesmo de receber ordem de prisão. Se nada resolver, espere a poeira midiática baixar, aproveite para ler “Memórias do Cárcere”, de Graciliano, e renove a idéia de “preso político”.

4) Fazendo parte da Comissão de Ética, vá ao programa do Jô e hasteie sua bandeira de campanha para o próximo ano. Faça piadas, distribua sorrisos, e destaque, em tom de cansaço, seu exaustivo trabalho na Comissão, uma verdadeira dádiva para o engrandecimento das instituições democráticas no Brasil. Ganhe os aplausos e, nessa hora, não culpe ninguém, porque a corrupção no Brasil acabou lhe dando palanque para seu espetáculo na TV, e não pega bem cuspir no prato publicamente.

5) Em caso de cassação de mandato, aperte o botão da auto-exaltação e saia de cabeça erguida. Comece falando de seus anos de vida pública, de seus serviços inestimáveis à nação. Adote uma atitude novelesca, vire a cabeça, salte, erga o dedo, lance impropérios a seus colegas, e, com energia, culpe o PT pela corrupção no Brasil. Não esqueça de levar seu mega-fone, para que, naquele momento de maior vibração e delírio, você não tenha seu discurso subitamente cortado pela insensibilidade do presidente da mesa. Se necessário, berre “o Brasil precisa me ouvir” e cante “My Way”, à la Frank Sinatra. Certamente, o Brasil vai querer lhe ouvir.


Titulo: Cinco breves lições para políticos virtuosos

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Crônica

Data de publicação: 18 de setembro de 2005

Resumo:

?Vai tanta diferença entre o como se vive e o modo por que se deveria viver, que quem se preocupar com o que se deveria fazer em vez do que se faz, aprende antes a ruína própria, do que o modo de se preservar?

4 Comentários

  1. Leonardo disse:

    Muito engraçado e bem escrito. A vantagem de morar num país que não é sério é que ao menos se dá risada.

  2. Mário disse:

    Hahaha. Boa, muito boa, Socha.

  3. Alexandre Piccolo disse:

    Ótimo texto, Socha, bem engraçado mesmo. Acho até que a receita do habeas corpus poderia ser estendida a qualquer cidadão comum, já que os desvarios hodiernos podem levar qualquer um, fácil-fácil, à cadeia. Parabéns pelo texto.

  4. Raulzito Seixas disse:

    Quem não tem vergonha, usa o PT na hora do apuro - e a vovó já me dizia que o ladrão vinha ajudar…

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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