Colunista mal-humorado

Crônica por Mário Neto
7 de janeiro de 2004

Entre as coisinhas que eu achava mais bacana entre as mil-e-uma bugigangas que meu avô (materno) tinha bem à mostra em sua escrivaninha (sagrada, diga-se de passagem) estavam aquelas plaquinhas que expressam o humor e que resolvem o inconveniente da pergunta alheia: chefe ranzinza, chefe bravo, chefe feliz, e coisas do gênero.

Os dizeres eram esses mesmos, secos, e as plaquinhas eram muito simples, só tinham a madeira e as letras gravadas nela. Nada de figuras, sorrisos, caras fechadas ou fotografias para enriquecer a mensagem. Penso até que meu avô as tenha pedido sob encomenda e com suas recomendações.

Dava para perceber que ele mantinha aquele negócio bem atualizado. Era olhar na plaquinha, depois para ele e rapidamente pensar em como interagir de acordo com o humor expressado.

Sempre pensei nelas como uma brincadeirinha, algo para se fazer piadinhas ou espantar baratas e credores. Afinal, as plaquinhas só serviam para confirmar seu vísivel estado de humor.

Mas eu havia me esquecido daqueles menos sensíveis, que só se tocavam com um cutucão no braço ou um apontar de dedos tímido.

- Eu queria dizer para seu avô que…

- Dê uma olhada no que diz aquela plaquinha ali, ó!

Muitas vezes funcionou. Mas haviam aqueles que riam e continuavam com provocações. Coisas de gente de negócios. Meu avô fazia caretas, dava para perceber.

Confesso, no entanto, que só me lembrei de tudo isso pois preciso expressar meu atual humor para leitores e amigos. Por mais que muitos me vejam como uma pessoa alegre, o que não deixa de ser verdade, ando com um danado de um mau humor nesses últimos dias.

Tenho procurado rir de mim mesmo pelas preocupações tolas e razões tolas que me levam a esse estado. Pois há preocupações que não são tolas, e com elas eu colocaria a mão sobre o queixo e suspiraria. Até refletiria em uma crônica que versasse sobre a (des)esperança ou a (im)prudência.

Mas a escrita absorve um pouco - ou até muito - de tudo isso. É bem difícil escrever sem deixar-se levar pelo que sua mente e corpo querem dizer.

Assim, para não continuar sendo um chato, expresso aqui explicitamente meu atual estado de humor. Espero que não perdure e que as pessoas me compreendam.

"Cuidado, colunista mal-humorado!"

Mário de Souza Neto tem passado os últimos dias com humor mediano. Porém prefere ser chamado de mal-humorado a aguentar piadinhas de ética duvidosa.


Titulo: Colunista mal-humorado

Autor: Mário Neto

Gênero: Crônica

Data de publicação: 7 de janeiro de 2004

Resumo:

É o que diz a plaquinha.

2 Comentários

  1. PH disse:

    Ótima. Sua ranzizisse fez com que as plaquinhas dos leitores tb mudasse, depois deste seu texto:”Leitores contentes”.

  2. valdilene disse:

    Mario,Compartilho com vc o mesmo mau-humor. talvez pela gravidez, ou mesmo por algumas circunstancias q me cercam.

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Quem é Mário Neto?

Um (eterno) aprendiz.

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