Combatendo os significados de “harmonia”

Crônica por Eduardo Socha
27 de março de 2003

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“Chaos Harmony”, um conceito revisto.

Guerra da coalizão contra a tirania de Saddam, guerra do narcotráfico contra o aparato jurídico nacional, guerra contra o imobilismo do congresso, guerra contra a fome e a violência. Há uma saturação de guerras nos noticiários (no incidente iraquiano, fala-se até de embates entre noticiários: dos furos da RTP e Al Jazeera à disputa CNN/FoxNews), a ponto de considerarmos moralmente irrelevante qualquer assunto que não se relacione com alguma delas (o que é obviamente um engano). Estamos todos em pé de guerra, apreensivos com a falta de perspectivas otimistas para a resolução dos conflitos, com a sensação generalizada de impotência. Mesmo essa entidade sem rosto chamada mercado oscila tenebrosa aos ventos das inúmeras guerras. O fato é que “harmonia” tornou-se palavra confusa no discurso dos acontecimentos deste início de século.

Quando Heráclito, obscuro filósofo da Antiguidade, afirmou que harmonia e conflito representam o mesmo conceito, certamente não poderia imaginar assassinatos de juízes nem ataques de mísseis skud. Dizia que justiça é discórdia, o que hoje nos parece incompreensível. Referia-se à tensão permanente de forças naturais contrárias e esta tensão perfaz o equilíbrio e a harmonia entre as coisas. Harmonia sonora, conjunção do grave e do agudo; harmonia das cores, sequência de matizes diferentes, etc. Então, se o justo é a discórdia conforme Heráclito, vivemos um tempo de harmonia entre as nações e de harmonia entre as castas brasileiras?

Quem sabe, Bush é um heraclitiano de carteirinha nesse sentido, pois fala de uma “harmonia para a América e para o mundo” ao legitimar os ataques. A morte de inocentes e o dispêndio belicista são relegados a um segundo plano na conquista desta “harmonia”. O que perturba é a manipulação do termo. Aqui ele não carrega o sentido, por exemplo, da irmandade entre os homens, sem conflitos, que Schiller lançava em seus versos. Do mesmo modo, vê-se uma utilização ambivalente da expressão “direitos humanos”. Enquanto os pacifistas reinvidicam o respeito a tais direitos, a articulação política de Bush (nas figuras de Karl Rove e Paul Wolfowitz) declara à mídia que a ofensiva e a consequente libertação/reconstrução do Iraque são motivadas pelos preceitos humanitários que o atual regime desconhece. É no mínimo estranho que pacifistas e forças de coalizão adotem a mesma língua ideológica, a dos direitos humanos.

As guerras diárias estampadas nos jornais, sendo harmoniosas ou não, derivam de forjamentos humanos, são artificiais em suas origens. O conflito de Heráclito, por outro lado, vale para aquilo que é natural: “o contrário é convergente e dos divergentes nasce a mais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia”, defendia o pensador de Éfeso. Felizmente, não há pacificação para este conflito. Deve ser entendido de maneira positiva, pois desta discórdia surge a vida. Massacre de iraquianos, mortes nos corredores sociais da violência, fome e miséria indiscutivelmente estão muito distantes da harmonia divisada por Heráclito.


Titulo: Combatendo os significados de “harmonia”

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Crônica

Data de publicação: 27 de março de 2003

Resumo:

A justiça é discórdia”. Um novo sentido para conflito.

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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