Crônica por Alexandre Piccolo
16 de junho de 2003

A cama estava deliciosa, macia, o travesseiro irresistível e… Acordei em paz e fazia sol. Logo pela manhã, ainda no banheiro, o dentifrício - popular e vulgarmente conhecido como "pasta de dente" ou "creme dental" - se esvaiu. Nem um restinho na bisnaga, já toda esmagada e espremida, sobrou para eliminar o insuportável mal hálito matinal. Enfim concluí que era desnecessário escovar os dentes pela manhã para ser feliz, melhor ir logo para o trabalho e esquecer estes pequenos detalhes. E para minha surpresa, entre o fechar a porta de casa e o apertar o botão do elevador, a luz acabou. Tudo bem, sete andares descendo incontáveis degraus de escada seriam o exercício da semana que tanto posterguei - ao menos é pra baixo, diria Pangloss. A pasta abarrotada e os livros entre os braços não ajudavam muito, mas enfim cheguei ao térreo depois de quatro desequilíbrios e uma quase cara esborrachada na parede. E, cadê a chave do carro? Ânimo, desânimo, ira, contar até dez. Subi e desci desta vez mais depressa: o peso e a paciência ficaram esperando. Os olhos se fechavam com força.
Com a chave do carro na mão e muita preocupação em manter a calma, apesar da respiração ofegante, saí de casa pro trabalho com o pé atrás. Mas não a pé. Melhor imaginar logo um engarrafamento gigantesco ou uma pane irrecuperável no motor do veículo, por pura precaução pessimista. Senão os dois desastres juntos. Quando percebi estava já suado mas dirigindo com cautela e sem relaxar, ao menos até desligar o carro no destino final. Curioso, cheguei são e salvo, sem arranhões ou engasgadas automobilísticas. Talvez preocupação demais, bobagem pouca. Desci, tranquei o carro e um, dois, três passos à frente… CABUM! O caminhão de lixo desgovernado ladeira abaixo acertou em cheio meu carro, por pouco não me atropela caminhando sonso em direção ao portão. Arrastou tudo e mais uma caçamba de entulho rua abaixo. Parou numa árvore, que acabara de perder a vida por se meter nas vontades desenfreadas da inércia. Era isso o que faltava neste dia. Melhor colocar a cabeça no lugar, agora só me restava ligar para a seguradora e resolver as pendências burocráticas do ressarcimento. Não havia outra solução, outra opção sequer: perda total era eufemismo. Alguma coisa me contorcia.
Polícia, boletim de ocorrência, olhares assustados, falatórios de todos ao redor, telefonema pra cá e pra lá, um blá-blá-blá dos infernos, mas tudo por fim se resolve. Ruim será ficar sem o carro esses dias. Bem, ao menos peguei minha pasta, livros e documentos ainda estão comigo. Nossa já são duas e meia, nem vi o tempo passar nesta confusão. Não almocei ainda (e agora que me bate a fome?!). Meu corpo se estremece. Preciso ir à universidade, entregar a ficha de inscrição no programa de intercâmbio, tenho uma reunião com o orientador, receber a nota de um trabalho, passar no banco, pagar a conta de luz, eticétera, eticétera, eticétera - e tudo isso de ônibus, o velho e lotado ônibus público. Ânimo zero. Melhor entrar de vez na firma, mandar alguns emails pra avisar… mas bem em frente à porta a secretária de cara embasbacada. Como assim, "a firma foi assaltada"? Levaram tudo, tudo roubado? Não pode ser, impossível! Impossível tanta desgraça num dia só. Meu peito dói, será o cigarro da véspera ou a correria da manhã, a dor é grande, agacho, levanto, jogo a pasta no chão, livro pros ares, pisoteio os papéis, o humor, as canetas e a raiva, estou suado, suando, tonto, zonzo, retorcido, quase rolando… Acordo!
Tudo em paz e faz sol. O dia parece bom, o ar fresco da manhã me anima. Hmmm, a pasta de dente acabou ontem… Melhor ficar deitado. Nada melhor do que ficar deitado para evitar o stress. Preguiça. Já-já me levanto e vou na quitanda da esquina comprar pasta de dente… Hmmm, não, não, melhor ficar deitado mesmo.
Titulo: Como combater o stress com pasta de dente
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Crônica
Data de publicação: 16 de junho de 2003
Resumo: Acordei em paz e fazia sol - aquele dia prometia.
É, às vezes, parece que nada nessa vida moderna e corrida faz sentido. às vezes o melhor mesmo é um bom dia na cama… sem compromisso com esse mundo fulgaz. Mas, se não podemos nos esconder cotidianamente, como levar a vida em frente? … Nossa! Até rimou!
Parabéns Alexandre, o texto leve com humor inteligente, descreve com fidelidade a crônica da vida moderna !!!!
Oi Alê, Enqto lia lamentei nossa pobre existência ridícula e pobre, no entanto sua insistente manifestação de desdém pelo mundo nada mais é do que uma idolatria a tudo de bom q nós, seres humanos, precisamos, merecemos e, mesmo sem perceber, abdicamos. Bjs, Tia Marilda
Muito bom! Gostei da inflexão “… e a raiva, estou suado, suando, tonto,zonzo…”, separando sonho e vigília por uma vírgula.
Sensacional, Alexandre! Tomo pra mim as palavras do Mario…
Li seu texto de manhã, antes de enfrentar a greve de metrôs de São Paulo. Qd percebi o caos instalado, lembrei de suas palavras: “deveria ter ficado em minha cama”.
Maravilha!!! Adorei o texto e já ia perguntar se tudo isso tinha acontecido mesmo! Uma loucura perfeitamente real…
Ótimo texto, Piccolo. A terça se mantém em alto nível…
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Cara, excelente texto. E o que é pior: não sei se isso aconteceu de fato ou não!!! Melhor nao perguntar…:)