Como enrolar com lero-lero

Crônica por Alexandre Piccolo
13 de dezembro de 2003

Uma dessas supostas piadas "feministas" diz que um homem casado perde noventa por cento de sua inteligência quando se torna um viúvo. E para arrematar, os 10% restantes vão-se embora quando o cachorro jaz debaixo da terra. Risos à parte, volto para esclarecer dois termos acima, breves mas por demais relevantes. E não se preocupe, a piada já foi entendida.

O "supostas" acima fica por conta da indefinição do gênero do fragmento de texto selecionado - e aqui (re)transformado. De "piada" a excerto xilográfico de um página medieval há um intervalo, se quisermos, multidimensional, porém a idéia acima - expressa nestas (simples e especiais) palavras, escolhidas e organizadas segundo os desejos de um autor e as normas de uma tal "língua portuguesa" (ou melhor, brasileira!) - não se limita ao alcance deste "recorte de linguagem" utilizado, bem como o humor da perspicaz proposição não é diminuído pela língua que, ao contrário, lhe confere carater preciso e contido em seu tempo e espaço de realização. Tudo isso para dizer que por mais valiosa, inventiva ou engraçada que seja uma idéia, a "embalagem" pode ser tão importante (senão mais, ora menos) quanto o próprio presente. Por isso quis explicar o "supostas" de "supostas piadas" que usei para classificar o excerto e iniciar esta divagação. Ora, imaginando que o "feministas" acima só tem, propositalmente, o ângulo contrário deste autor-homem ante a suposta "ofensa" da piada - consciente do "sexo dos bichos" nas fábulas populares -, o ponto que me sobra entre os dedos e ainda reluz é um grão de areia preciosissímo e não-de-hoje: a luta-`mor sem-fim entre homens e mulheres.

Por que Deus nos fez em homens e mulheres eu não sei, mas sei que assim nos fez. Queiramos ou do-contra, nascemos nesta "pelada da vida" com a camisa do time definida: homens, ou "os sem-camisa", e mulheres - normalmente um pouco mais resguardadas. Juíz e bandeirinhas são três árbitos disfarçados em um, segundo algumas federações cristãs. No jogo há quem diga que vale tudo, enquanto outros defendem o drible elegante, o passe de prima e, às vezes, até admitem um golzinho de mão. Mas depois de apitado o fim do tempo regulamentar, as estatísticas de faltas, cartões, passes errados, chutes a gol e, quiçá, alguma bola na rede surgirão - com seu devido destaque. Deixando de lado a estatística dos noves fora, é esta bipolaridade (ou dualidade, oposição entre dois, antítese, opostos, binários, bipartidarismo etc.) que faz a graça do jogo e sustenta uma já famosa "dialética do-que-quer-que-seja" pela simples eternidade de sua existência - que, ao mesmo tempo, nos satisfaz e nos aflige. Ao menos segundo a razão de nossos humanos corações - ou ao coração de nossa razão, para usar e abusar das antístrofes.

De "homem e mulher" - oposição e complemento dos mais perfeitos - a "céu e terra", "claro e escuro" ou qualquer outro par zero-e-um do bit tão em voga, brevemente nos maravilhamos com seu mistério e eternamente questionamos seu segredo - na tentativa constante de aproximar um do outro. Só pra fazer o gancho, li certa vez uma execrada tradução (indireta do francês para o português) de A arte de amar, de Ovídio, cuja lembrança guarda, além de agradáveis horas de leitura e boas risadas, uma forte impressão de perenidade da essência humana - calcada nos eternos percalços da fortuna amorosa - e uma sábia e controversa tentativa do autor de domá-la. Enfim, tudo isso para exaltar os dons desta obra que julgo divertida e célebre, na dita história da literatura ocidental, e que conheci por caminhos duvidosos, dentre a melhor das impressões. Talvez mais um destes dualismos misteriosos e indecifráveis da vida…

Assim, encerrando já a conversa-mole, poderia ao final do texto me deparar com mais uma escolha de dois, dois caminhos bifurcados para seguir: fazer um reply à altura ao email "A revanche das mulheres" - que m'incaminharam e incitou este breve papo - e revidar com o requinte das melhores pilhérias masculinas; fazer outra transformação doutra breve piadinha apenas para lhes contar que, se mais de 10% das mulheres fossem para o céu, o céu teria outro nome - e seguir adiante nas inúmeras alfinetadas e divagações desta natureza no texto…; ou arrematar por aqui. Porque entre fazer e não-fazer, tenho preferido esta última escolha de dois.

da série Manual de Uso e Instrução


Titulo: Como enrolar com lero-lero

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Crônica

Data de publicação: 13 de dezembro de 2003

Resumo:

Será que você cai nessa?

3 Comentários

  1. Marilda Piccolo disse:

    Alê, esse seu “ler-lero” é a cara de homem mesmo…rs… Feminismos à parte é MUITO difícil entender os homens… Um beijo, Marilda

  2. Mário disse:

    Texto gostoso, Alex. Enrolou bem… disse que não ia dizer… mas disse. Hehe. Curti.

  3. PH disse:

    divagações, lero-lero e enrolações como diz o próprio texto. Só esqueceu de completar: de forma muito espirituosa.

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