Crônica por Alexandre Piccolo
24 de junho de 2003
Há aqueles que olham em frente, aqueles que olham abaixo, outros para os lados. Até quem vigia o peixe e frita o gato, nas palavras do dito popular escarninho. Eu confesso que não sei ao certo para que direção costumo olhar, tão vago e pouco direcionado anda meu vagueante olhar. Cambaleante, distante, no mínimo falsamente seguro, jamais um tratante. Quero jogo limpo, sem sujeira no bico ou nas unhas. Aqueles dois vivem conversando sem se olhar, nem sabem pra onde olham. Também, sabem tudo, arrogantes, impossível se desvencilhar. Eu troco papo, calado, quieto, ora efusivo pra mostrar meu ciscar convencido, certeiro. Mas incerto, de pombo. E fico no meu canto, pombas! Às vezes embriagado, não raro sozinho ainda que acompanhado, boa prosa e penugem, outrora sóbrio, muitas das vezes me perguntando: para onde olhar. Cisco daqui, dali. Nem sei mais. E com olhinhos tão pequenos, não poderia desfrutar de nada mais mesmo. Será reclamação? Mas ganhei olhos sadios, que enxergam bem… Nem preciso de óculos, mas quem já viu pombo de óculos. Tenho um amigo pombo-correio mas ele sabe para onde ir, para onde olhar. Direção, é disto que preciso. Vivo rodeando, dando voltas. Pra quê? Quem sabe é o frio. Dizem que no frio a gente olha e come mais. Hibernar é com os ursos, ou os porcos que comem e vão furunfar. Comigo não. Vou ficar vagueando, pra todo lado olhando. Vai ver o frio me deixa mesmo elétrico, precisando de energia pro olhar e pro comer, cisca daqui, remexe dali, no fundo sem fixar em nenhum lugar. E pra lugar nenhum vai este parto. Ouvi há pouco. Tinha boas idéias, de pombo mas perdi todas na areia do mar. Preciso encontrar. Me reencontrar. Onde está aquele grão que deixei, será que caiu na areia? Deve estar molhado de sol, vermelho de mar, azul de tanto olhar. Cinza de tanta cor trocar, olhar de pombo. Um dia vou lá. Atrás do morro que já amadureceu. É pra lá. Pegar as asas e voar, sem olhar. Será que é lá que deixei, será que é pra lá que eu vou? Onde está? Onde está o grão que deixei?
Titulo: Como ser um pombo
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Crônica
Data de publicação: 24 de junho de 2003
Resumo: Pombo correio, pomba da paz, pombo comum como todos nós.
Oi Alê, Na verdade os porcos vão chafurdar, mas os pombos, com certeza, pombear…No entanto o q queremos é ser feliz… Para minhas avós, q mal conheci, ser feliz era fácil. Aos 20 anos de idade, muitas já tinham alcançado o seu objetivo. E nós? Somos pombos… Bjs, Tia Marilda
Puxa vida, cara, parabéns mesmo… Este “Manual…” passa pelo cômico e pela reflexão com a mesma desenvoltura! Siga firme!
Ótimo! Esta série está demais…
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Muito bacana. singelo e reflexivo… segue em frente com esta série que logo teremos uma obra muito valiosa.