Crônica por Alexandre Piccolo
19 de julho de 2005

Última quinta-feira, Morumbi lotado. A torcida são-paulina balançava o estádio, literalmente. As arquibancadas tremiam em meio aos pulos, gritos e cantorias. Ao meu lado, irmãos e irmãs professavam a mesma fé, entoavam o mesmo hino do time de coração ? dezenas de milhares de torcedores ali reunidos empurravam ao vivo um só time, outros milhares acompanhavam a partida, pelo rádio ou tv, e gritavam e mordiam e vibravam e torciam juntos, numa só oração. O jogo, o resultado, a celebração e o falatório posterior todos já conhecem.
Entre o primeiro e segundo tempos ? quando pensava jamais ser possível tirar uns minutinhos de descanso para recuperar o fôlego de torcedor ? contemplei por alguns instantes todo o Morumbi, num olhar filosófico. Completamente abarrotado. Não havia espaço nem para mais fumaça (ainda que, admitamos, coubessem certamente mais uns cinco ou seis fanáticos, isso causaria um desagradável empurra-empurra, semelhante ao da saída). Em meio ao furor coletivo, neste fitar longe o vazio do estádio - repare a figura de linguagem -, num breve momento de fugaz descanso, não mais acreditei no time.
Não assim momentaneamente, da boca-pra-fora, tipo “não vamos ganhar o jogo”. Fora algo mais filosófico, uma dúvida existencial como “por que torcemos todos aqui para o São Paulo?”. Digamos, um questionamento ontológico do simples ato de torcer ? desculpe a tautologia.
Confesso que preferi ficar quieto. Em meio a tantos confrades, qualquer manifestação de dúvida em minha fé no time poderia ser considerada heresia ? ainda que estivesse longe de me ver com o uniforme atleticano (e pior, do Paraná). Ensimesmado, refleti o eterno fides et ratio futebolístico durante o tempo em que o sinalizador, duas fileiras abaixo, iluminava-nos num vermelho violáceo, naquela fria noite de julho. Longe do “pão e circo”, “ópio do povo” ou algo que o valha - havia tempo que não ponderava tais teorias. Mas num simples piscar d?olhos, retornei a mim descrente de mim mesmo, da torcida, do São Paulo Futebol Clube, do campeonato brasileiro, da CBF (não é pra menos), do próprio Deus. Foram segundos eternos de tristeza, silêncio e solidão dentro da enfurecida massa de torcedores que, ainda que civilizadamente, fazia seu barulho e não deixava ninguém parado - e não é figura de linguagem.
Sem palavras, martelava-me: por que os homens tinham um time? Por que acreditavam nele? E por que justamente naquele time? Meus questionamentos pareciam infantis quando lembrava que meus parentes têm um time, meus ancestrais tiveram um time e, se um dia aparecerem sobrinhos (atenção: sobrinhos!), eles também terão um time. Porém a resposta, num átimo, metamorfoseava-se novamente em pergunta e fazia cair, como dominós enfileirados, todo um passado e futuro de torcedores. Acreditavam porque alguém um dia acreditou; talvez como se escolhe gostar de preto, vermelho, azul ou branco. Os jogos celebravam, dia após dia, a festa da fé futebolística, o desafio entre dois crédulos que sempre acaba bem ? não fossem alguns ortodoxos e seus extremos. Nestes cultos, o resultado nunca fora importante (especialmente os empates): exaltava-se sempre a crença de algo supostamente maior e o dever não hesitava em ser cumprido. Vi a minha frente inúmeros homens beijando a camisa como outrora bejaram a Cruz, o Corão ou a estátua de Buda, em minha imaginação cinematograficamente turbinada: anos de toddy e filmes. Compartilhada entre todos, aquela luta por uma única causa, em prol de um bem único (antes cego) e partilhado levava-me ao altar do futebol para professar minha fé, agora esvaindo-se como a luz do sinalizador que se apagava. Não sentia mover montanhas, mas uma montanha enorme surgira dentro de mim. A fumaça incomodava a respiração e os olhos. Parecia cegar-me a alma.
Ateu, um são paulino?
Parecia impossível. E fora verdade. Assisti ao segundo tempo quieto (na medida do que me foi possível), desconfortavelmente quieto. Não queria mais ver o jogo, nem balançava mais os braços, tentava me encontrar entre gritos e vaias. Para onde iria tudo aquilo, mesmo que saísse sozinho do estádio - queira Deus, são e salvo (nestas horas, crente medroso e fiel) - quando todos simplesmente desapareceriam ao menor estalo de meus dedos? Derretia… Entretanto minha quietude não demorou muito, ao vislumbre do segundo gol. Todos pulávamos de exaltação e alegria. O furor coletivo, além de nos esquentar no frio, contagiava-nos novamente a reacender a chama da fé futebolística. Entre passos miúdos à esquerda e à direita, tentei reavivar breves reflexões. Num furor intempestivo sacudi-me e, ainda que não acreditasse em tudo aquilo e encarasse tal emaranhado lógico como um intrincado jogo de estruturas humanas intransponíveis, estava pronto a gritar e me rebelar… o terceiro gol decepou-me qualquer divagação. Era euforia, uma quase epifania da vitória a ser celebrada. Impossível ficar parado. A discussão teológica de que o ritmo do universo é alterno, ali, não tinha lugar: éramos prova viva e pulsante ? e como pulava…
Santo Agostinho, no livro VI de suas Confissões, relata o perigo dum espetáculo de gladiadores. “Tudo fervia nas paixões mais selvagens”, diz o filósofo, que supunha ser possível resistir ao clamor público de olhos fechados. Daí seu perigo, pois sabia (ou veio a saber) que o convívio coletivo e suas imagens, mesmo violentas, contagiavam e, ao abri-los, “sorvia o furor popular”, inebriava-se. Deus arrancou-lhe do espetáculo sangrento talvez como me arrancou do Morumbi lotado ? ou, menos ridículo, fez-me chegar em casa são e salvo. Lembrei-me, não sem um falso sorriso no canto da boca, de como estas experiências coletivas, do Santo e a minha, surgiram em momentos tão distantes e desencadearam reflexões tão díspares. Jamais suporia ser um jogo de futebol prova de fé tão ardilosa, ainda que simples. Talvez por isso não encontre tantos padres nos estádios.
Recuperada minha fé, nas torcidas e no futebol inclusive, preferi deixar de lado os questionamentos. Foram gols (e gritos) demais para enredar-se em tanta razão sem razão.
Titulo: Como ver um jogo de futebol
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Crônica
Data de publicação: 19 de julho de 2005
Resumo: Até um são paulino?
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adorei. Muito bom!