Crônica por Mário Neto
28 de abril de 2005
Da série “Cartilha do Galanteador Interiorano”
O homem interiorano já sabe, conforme lição anterior, o quanto o automóvel acresce em sua capacidade galanteadora. E, de fato, o leitor mais atento se lembrará de dois ou três homens em sua cidade ? no mínimo ? que têm realmente um charme irresistível por usarem esse recurso de modo tão inteligente: os vidros escurecidos, a cor metálica e sóbria com uma explícita associação emocional ? “o cinza metálico tem sexy appeal, um ?quê? de modernidade, e mostra realmente como sou nas coisas que faço” ?, o porta-malas espaçoso, sem contar os diversos conhecimentos a respeito do automóvel, como os cilindros e cavalos, que mostram realmente como o indivíduo busca conhecer profundamente aquilo que deseja.
Porém, caro leitor e leitora, o efeito do automóvel ainda é pequeno se comparado à longa jornada para transformar um homem em alguém verdadeiramente joiado e admirado por todos. O efeito galante advém do conjunto da obra, dos aspectos materiais e emocionais, do estado espiritual e mental, e não apenas de um ou outro recurso usado de forma isolada. Novamente, se o leitor atento fizer um ligeiro esforço de memória, lembrará de homens que parecem realmente patéticos ? volto a lembrar que parecer, e não necessariamente ser, já basta para os fins desta cartilha ? por tentarem usar apenas alguns recursos de forma isolada. (Por exemplo, usar muito gel no cabelo, banhar-se com um fortíssimo e forçado perfume de borrifar e mascar chicletes como um ruminante.) Talvez estes não acreditem na real possibilidade de se tornarem charmosos e atraentes. Talvez acreditem que os seres galantes são agraciados pela metafísica ou simplesmente presenteados pela genética. Enganam-se. Se alguns (poucos, diga-se de passagem) conseguem ser atraentes agindo de forma “natural” ou “inconsciente”, isto se deve mais ao acaso que a qualquer outro fator. A experiência demonstra o contrário: é perfeitamente possível o uso de um método racional e disciplinado para que essa transformação seja um verdadeiro sucesso. Faça você mesmo o teste.
A lição de hoje tem um pré-requisito: que o homem tenha um carro. Mesmo que não tenha as características citadas anteriormente, ainda assim se aplica. Afinal, os acessórios são tão importantes quanto o próprio automóvel. Ambos se complementam. Dentre esses acessórios, como a requintada direção hidráulica, as provocantes rodas esportivas, o barulhento turbo e os simpáticos néons, os que mais se destacam são o som e as caixas acústicas. Eles revolucionam o automóvel. Pode parecer exagero, mas o homem que souber usá-los pode obter resultados surpreendentes.
Primeiramente, eles têm um efeito voltado para dentro. O som e suas caixas são um excelente recurso para harmonizar o interior do carro. Os passageiros podem cansar-se do incomodativo som do motor ou simplesmente do perigoso silêncio que preenche os intervalos entre as conversas sobre família, futebol e relacionamento. Para o caso importante de haver uma única passageira, a qual o rapaz tem interesses diferenciados e até quem sabe prolongados, o som se torna necessidade da maior urgência. Muitos galantes já me confessaram que, quando imersos em tensas discussões com a garota sobre a possibilidade ou não do intercurso sexual antes do casamento, ficaram muito aliviados quando colocaram uma gravação (repleta de ruídos) de “Hotel California” ou “Borbulhas de amor” para tocar em seu velho toca-fitas. Realmente, com os vidros fechados, a música proveniente do aparelho de som oferece um clima aconchegante para um casal aflito por afeto. Você, que é um marido atento às freqüentes provocações da esposa sobre ser muito frio, distante, não-romântico ou simplesmente um pulha, tem no som do automóvel um grande aliado. Experimente, por exemplo, convidá-la para um passeio automobilístico sob o belíssimo luar interiorano nas bordas da cidade. Procure então um local onde possa parar o carro e apreciar o céu ao som envolvente de “Eu sei que vou te amar”, enquanto vocês saboreiam um delicioso cachorro-quente que compraram minutos antes. Isso não é de arrepiar os fios de cabelo da nuca?
Além do aconchego proporcionado pelo aparelho de som e suas caixas acústicas, que tornam muito mais agradável a convivência dentro do carro e elevam em muito a percepção dos passageiros a seu respeito, há também seu efeito voltado para fora, que é igualmente importante. O homem galante sabe bem a razão: a música atrai as pessoas e envolve o ambiente pelo qual se movimenta. E mais: quando as caixas acústicas são exploradas até seus limites, ou seja, quando o tom grave faz tremer as estruturas do automóvel e estimula o tímpano dos ouvintes mais ousados e valentes, o automóvel se torna o centro das atenções, absorvendo olhares curiosos e sedentos por saber quem é a fina flor do corajoso ato. (Um complemento importante para essa ação é a presença do vidro escuro, que dificulta o reconhecimento do galante, aumentando a curiosidade e o desejo de conhecê-lo.) Mas sem dúvida o resultado é ainda melhor se o automóvel estiver parado, pois atraídas pelo potente som de seu carro, moçoilas hipnotizadas pelas batidas aparecerão aos bocados, girando como libélulas em torno de uma lâmpada ou como abelhas sedentas por mel. Logo começarão a fazer caras inusitadas e movimentos graciosos com as mãos, olhando-o em certos casos com uma sincera expressão de volúpia, e você poderá encostar-se ao lado do veículo com uma bela pose enquanto aprecia todo esse espetáculo. Tudo isso, caro leitor, apenas com um reles aparelho de som e algumas caixas acústicas.
Portanto, acredite no potencial dos acessórios de seu carro. Há neles mais poder do que um tímido adolescente ou um quarentão velhaco podem imaginar.
Mário de Souza Neto já teve som instalado em seu veículo, porém foram roubados já faz certo tempo. Pelo menos se consola por saber que o meliante também reconhece o poder desses acessórios e tem a chance de seguir rumo ao difícil status de galante.
Titulo: Da atração proporcionada pelo aparelho de som do automóvel
Autor: Mário Neto
Gênero: Crônica
Data de publicação: 28 de abril de 2005
Resumo: É preciso mais do que um carro.
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Enfim, a aguardada continuação… hehe, de arrepiar os fios de cabelo d… ;^)