Crônica por Eduardo Socha
8 de março de 2004

Cuidado, leitor(a), confissões enfadonhas nas próximas linhas. Aviso-lhe por indulgência, para que não perca tempo e possa desistir agora, sem direito a insultos mais tarde. Bom, risco transferido.
Precisamente há um ano, estabeleci o compromisso de articular um texto por semana. Não importava, de pequenos ensaios sobre hermenêutica hegeliana a receitas de lambari com escabeche (aproveitando o tom confessional, minha maior conquista culinária foi uma panela de pipoca doce, feita de açúcar mascavo numa tarde chuvosa de outubro de 1997), tudo serviria de pretexto para cumprir a auto-exigência. Queria perseguir o dito romano, nulla dies sine linea ? ou, em tupi industrial, ?nenhum dia sem (escrever) uma linha?. Mas achei por bem estender o prazo e a quantidade: nenhuma semana sem três parágrafos. O objetivo era disciplinar um ímpeto retesado por muitos anos. Sem rigor, a preguiça logo dominaria esta necessidade de expulsar para o papel as vísceras de uma inquietação contínua, a necessidade inexplicável do ato doloroso de escrever. Percebi que já era hora de respeitar e liberar aquele velho ímpeto da busca sequiosa pela palavra correta.
Vieram as semanas e os desastres. Minha intimidade com o papel branco respondia pela matemática, pelo binômio de Newton, não por prolepses ou pela horripilante oração predicativa reduzida de infinitivo, que Deus as guarde. E aí está talvez uma deficiência que, mesmo hoje, o leitor atento verifica sem pestanejar. Houve semanas de pérolas, que certamente atiçariam a fúria da Dona Clotilde, saudosa professora da 4a. série.
Mas (e aqui, claro, só pode caber um “mas”), apesar das pérolas, a paciência obstinada concebeu algumas noções, ou melhor, proto-noções para reparar o irreparável. E a bagatela saía, capenga, porém legível (o arrependimento chegava em seguida). Agora fecha-se um ano de uma lavra por semana, ainda tateando no escuro da sala de idéias aquele interruptor que não existe.
Por coincidência (ou não), tombei na semana passada com as “Cartas”, do poeta Rainer Maria Rilke, livro para nunca sair da cabeceira. A primeira correspondência sugere a pergunta “morreria, se fosse vedado escrever? (…) sou mesmo forçado a escrever?” e pede que se escave dentro de si uma resposta profunda. A questão talvez perca o vigor diante da miséria, da luta social pela sobrevivência que se vê nas ruas. Ao mesmo tempo, intensifica-se quando outra espécie de necessidade, para além da dependência física, é evocada.
Nesse domínio, fica difícil hoje encontrar resposta. Tenho apenas um palpite. Como no mito de Sísifo, empurramos uma enorme pedra que, quando atinge o topo da colina, despenca morro abaixo, exigindo infinitamente o recomeço da tarefa imposta pelo castigo dos deuses. Mas tal esforço, já disse o filósofo, basta para preencher o coração do homem e, por isso, é preciso imaginar Sísifo contente. Para mim, escrever representa este perpétuo e prazeroso tormento.
Titulo: Da necessidade de escrever
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Crônica
Data de publicação: 8 de março de 2004
Resumo: Confissões enfadonhas nas próximas linhas
Prazerosamente, atormente-se sempre, Socha, pois para nós, leitores, é um prazer exclusivo e engrandecedor ler suas divagações, conjecturas, respostas e palpites tão bem entretecidos. Parabéns e um grande abraço.
Tem cumprido o compromisso com sobras… seus textos são um referencial para aPatada. E compartilho o “prazeroso tormento” da escrita…
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Parabéns!Recomendei a meus alunos.Recomendei a meus alunos.