De bolinagem, motéis e afins

Crônica por Thiago Mom
1 de julho de 2005

Existem há bastante tempo em São Paulo, mas pelo que eu saiba ainda não em Florianópolis, as garagens que servem de motel. Uma alternativa bastante prosaica mas nem por isso menos interessante: nada de cama, banheira de hidromassagem, frigobar, espelhos e "sim, continue, você sabe fazer do meu jeito" passando na televisão, só que quase sempre menos de R$ 20 e várias risadas garantidas pra quem insistir, por exemplo, num bunda-lelê dentro de um Ford Ka.

Já um motel razoável, em que o lençol é mais do que sacudido e trocado de lado, não belisca menos do que R$ 40 da sua carteira, e a quantidade de modelos de plena independência feminina que ainda se converte em vítimas recatadas de filme preto-e-branco na hora da saída é uma coisa espantosa. Não que, sei lá, trocar algumas notas amarelas com um mico por algumas das melhores horas da sua vida seja problema. Não, claro que não. Nesse caso você raspa sua conta com prazer e vai pra casa a 38 km/h, cantando amarradão aquela música da rádio que sempre detestou, parando em todas as faixas de pedestres e obedecendo a todos os radares da cidade - o que, em Florianópolis, vem se tornando tão fácil quanto roubar a Mona Lisa do Louvre sem fazer disparar nenhum alarme, mas enfim.

Só que, claro, nem sempre é assim: existe o pior sexo, que é o sexo quase bom, feito por duas pessoas que quase se suportam, hipótese pra qual existe o lugar quase ideal. Sem a opção das garagens, esse lugar costuma ser qualquer um onde você possa estacionar. Com o perrengue da violência, no entanto, se você partir pra bolinagem num lugar como a Praia da Joaquina, na ilha, tem grandes chances de acabar a noite com a sua gata no porta-malas - o que, a menos que você seja um discípulo do Magaiver, não me parece muito entusiasmante. E se você opta por um bairro um pouco mais seguro, existe sempre um vigia sádico pra acender uma lanterna na sua cara e te mandar circular.

Mas o carro não serve apenas pra noites que não tendem a entrar no seu álbum de melhores momentos. Ele é também um meio-termo pra mulheres que não querem ir pra sua casa mas também não querem ficar a madrugada inteira te beijando num ambiente social cheio de fumaça, barulho e outras pessoas. Quer dizer, o carro servia e era. Agora, justamente por causa da violência, as pseudopudiquinhas andam cada vez mais inclinadas a nos convidarem pra subir um pouquinho. Também pros pais que se chateiam de topar com alguém a caminho da geladeira às três da manhã, portanto, a idéia das garagens moteleiras não deixa de ser extremamente vantajosa.


Titulo: De bolinagem, motéis e afins

Autor: Thiago Mom

Gênero: Crônica

Data de publicação: 1 de julho de 2005

Resumo:

Existe o pior sexo, que é o sexo quase bom, feito por duas pessoas que quase se suportam, hipótese pra qual existe o lugar quase ideal

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2 Comentários

  1. Mário disse:

    Hehehe. Boa.

  2. Nilson disse:

    belo trabalho, adequado a uma colocação bastante realista. O terceiro parágrafo teve por acaso alguma influência da propaganda da coca cola? se sim, isso agregou valor e otimizou o texto, parabéns!

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