De volta para os 80

Crônica por Thiago Mom
17 de abril de 2005

Antes da quinta página, o seu De Lorean já vai ter chegado a 88 milhas e você a um dia qualquer entre 1981 e 1990. Mascando minichicletes Adams e jogando Super Trunfo com seu primo. Comendo um pacote de Monstrinhos Creck e montando seu Forte Apache do Playmobil. Assistindo Zelda Scott, Juba, Lula e Bacana em "Armação Ilimitada" ou desvalorizando o apartamento dos vizinhos ao som de “Adelaide, ô, minha anã paraguaia…”

Lançado recentemente, Almanaque anos 80 (Ediouro, 49 reais) é a redenção saudosista dos anos que alguns chatos acusam de inúteis ? no fim só repetindo, com essa história de “década perdida”, o desespero de um conhecido meu quando viu que um jogador do seu álbum do Campeonato Brasileiro de 89 ficaria faltando.

Além de redentor, o livro dos jornalistas Luiz André Alzer e Mariana Claudino sai na temporada certa: a circulação de e-mails lembrando Estalinhos Guri e afins têm sido comum, TV Pirata está sendo lançado em DVD e cantores que foram pros subterrâneos da mídia depois dos 80?s (Léo Jaime, Ritchie, Kid Vinil) estão saindo de lá quase tão aos bandos quanto os pingüins no final de Batman, O Retorno ? citado só pra efeitos de metáfora, mesmo, porque já é de 1992.

O erro dos detratores daqueles anos é projetar o desencanto da vida pública no encanto da vida privada. Os anos 80 foram, sim, aqueles em que a Aids se estabelceu, o individualismo se tornou religião e o arrivismo, pecado menor. Mas enquanto isso jogávamos Detetive, preocupados em saber se o assassino tinha sido realmente o Coronel Mostarda com um candelabro na sala de estar.

A melhor década é geralmente aquela navegada quando se tem alguma coisa entre cinco e 23 anos, e pra efeitos de saudade não importa o quanto as lembranças são trash. "Histórias que nossas babás não contavam" e "Asterix", séries de filmes e gibis, no SBT e nas melhores livrarias, tinham propostas completamente diferentes mas sobraram deles o mesmo valor evocativo pra nós, pirralhos de então.

"Asterix" trazia um humor inteligente e referências históricas que várias vezes nos passavam em branco, mas tudo bem. "Histórias que nossas babás não contavam" era sempre uma releitura difamatória qualquer da "Branca de neve e os Sete Anões", em que Branca tinha sempre um pretexto pra deixar cair o sutiã e nos deslumbrar com seus cândidos peitinhos.

Por isso, quando traz fotos e/ou textos relembrando Pogobol, Pense Bem, Cabra-cega, "Magaiver", "Gremlins", "Biquíni Cavadão", "Simply Red", "Oingo Boingo", "Que Rei sou eu?", "Coleção Vaga-lume", "Feliz ano velho", a Lotus preta e dourada do Senna e a "Playboy" com a Magda Cotrofe na capa, Almanaque anos 80 não está questionando os valores pedagógicos ou culturais de tudo isso, mas apenas ligando ruas e avenidas das nossas lembranças mais remotas - indiferente ao quanto o marketing do Chambinho jogava limpo ou não.

Que as referências de uma geração deveriam somar um pouco menos de apelo publicitário, isso é conversa que fica pra outro livro e resenhas. Almanaque anos 80 é a figurinha saudosista que faltava no álbum de muita gente.


Titulo: De volta para os 80

Autor: Thiago Mom

Gênero: Crônica

Data de publicação: 17 de abril de 2005

Resumo:

Almanaque anos 80 é a redenção saudosista de uma década que os chatos acusam de inútil.

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2 Comentários

  1. Alexandre Piccolo disse:

    taí, Thiago, enfim uma bela lembrança dos anos 80 (argh! - assumo já minha chatice): o “De Lorean” do “Back to the Future”, filmão de 1985…

  2. PH disse:

    ótima cronica, Thiago. Resgatou bem o espírito da coisa, numa perspectiva infantil dos anos 80 (a mesma que eu tenho, diga-se de passagem, ao contrário de uns amigos mais velhos que foram no Show do Ira!, na praça do relógio - que tb deve ter sido legal). De qq forma, eu completei o album do campeonato brasileiro de 89. Mas nenhuma figurinha foi mais difícil que o Cantarelli, goleiro do flamengo, no álbum da “Copa União”, de 87 - quando quase todos os times eram patrocinados pela Coca-Cola; e quando o Muller, Careca e Silas tinham acabado de conquistar o título brasileiro de 86 pelo glorioso tricolor - apelidado na época de “Menudos”. Nada mais anos 80.

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