Crônica por Fabiana Tonin
7 de outubro de 2005

Sou mesmo uma mulher de dois séculos atrás (parodiando Luciano Trigo, que ele me perdoe…).No sábado passado, ganhei um dos melhores presentes da minha vida: ir à ópera. Com sabor de um vinho novo, recém-descoberto, mas muito bem guardado e “envelhecido” pela expectativa, o espetáculo para os olhos, o corpo todo, o espírito. Tudo que se puder descrever é pouco, talvez o melhor seja mesmo a sabedoria de Machado que considera a vida uma ópera ? sim, a ópera contém em si toda essência, o maravilhoso, o esplendoroso, o incrível, o doloroso, o inevitável, o triste, tudo que é vivo e pulsa.
Enfim, deleitada com a experiência, retomei desconfianças antigas de como os homens (e, especialmente, as mulheres) eram talvez mais felizes que nós no século XIX. Contrariando Mário de Andrade que dizia ter medo de “ser passadista” e de “beber teorias-avós”, me ponho aqui a defender costumes, hábitos, privilégios-sustentáculos do século que viu o turbilhão de Hugo, Delacroix, Alencar e Azevedos, além da minúcia, elegância, espetáculo ímpar de Dostoievski, Machado, Flaubert…Poderia outro século ser tão surpreendente?Mas, embora eu pudesse discorrer sobre arte, literatura (ou o tentasse fazer), farei apontamentos singelos.
O primeiro, é claro, fica por conta da ópera. Num século que ? graças ao bom Deus (mesmo que este estivesse “morto” por várias correntes de pensamento…) ? não viu shoppings, tv, internet e os chats, orkuts e outras chatices, tudo (!!!) o que se tinha a fazer de mais interessante, para quem tivesse meios, era ir à ópera. Mesmo que houvesse fofocas, intrigas, conluios, flertes (que a gente nem sabe mais o que é hoje, tão démodé, estranha essa palavra), tudo era envolvido pela magia da ópera, dos grandes cantores, os grandes maestros, a música fresca e fluente inundando a tudo e todos. Absolutamente encantador, a ópera por distração, por meio de cultura, em amplos e plenos sentidos.
Outro apontamento que decorre do primeiro: felizes mulheres que, apesar dos espartilhos (deviam ser incômodos, veja-se o tanto de moças “românticas” desmaiadas…), apareciam rendadas e desejadas em vestidos lindos, majestosos, mesmo quando singelos e ,sobretudo, marcando, destacando a cintura…(note-se aqui, observação personalíssima dessa autora: como um dos poucos dotes, a natureza me deu uma linda cintura, que pouco posso mostrar, pois nosso tempo não gosta muito de cinturas, prefere bundas e silicole…sim, queria ser uma mulher do século XIX e exibir minha cintura…).
Só mais um último e egoísta apontamento: brancura era padrão no século XIX. Com certeza, não havia tantos casos de câncer de pele, mulheres leitosas desfilavam, vaidosas, literalmente resplandescentes, se protegiam do sol, destestavam-no, melhor garantir o “marfim” e o “colo de alabastro”(mais uma vez, trata-se de egoísmo meu: ser branca num país tropical só rende recriminação e cantadas toscas do tipo: “vai tomar um sol, minha musa!”. Francamente…).
Enfim, minha vida seria quase perfeita no século XIX: vestido acinturado, pele branca à mostra, com orgulho e (pasme…) despertando inveja, e claro, tudo isso na ópera…Acho que, realmente, nasci um pouco atrasada…Ah, o século XIX (ouça-se aqui o suspiro quase lânguido duma moça de antigamente…).
Titulo: Devaneios de uma mulher que não está no século XIX…
Autor: Fabiana Tonin
Gênero: Crônica
Data de publicação: 7 de outubro de 2005
Resumo: Saudosismo fora de época por alguém que se sente fora de época…
Compartilho com você um certo “deslocamento” com relação à nossa época, porém não o gosto pelo século XIX.
De qualquer forma, óperas e cinturas continuam a resistir… felizmente.
Divertido seu texto! Tb tenho dessas crises de melancolia contemporânea!
ah, le bon Dieu…
Bad Behavior has blocked 21 access attempts in the last 7 days.
Realmente encantadora e maravilhosa…