Crônica por Eduardo Socha
3 de maio de 2004
No calor poluído do trânsito de segunda-feira, começo minha semana. Sinal vermelho, paro na pista da esquerda. Olho para o lado e vejo um menino de rua, sentado no meio-fio, cabeça recostada entre os joelhos, braços desenhando círculos invisíveis no chão - cena trivial em qualquer metrópole latino-americana. O menino então levanta a cabeça. Está chorando, choro doído. As lágrimas de tão antigas haviam trilhado rastros secos em seu rosto, enquanto o novo pranto lhe abria outros caminhos. O trivial acaba aí, fico em choque. A estupidez bestial dos homens se cristaliza por inteiro, súbito, no choro daquela criança. Sobe-me um sentimento corroído de piedade, revolta e impotência. Ele me olha ainda, não consigo mais e viro o rosto. O sinal abre. Meu cinismo, gangrenado por essa realidade, engata a marcha e pisa o acelerador, tentando dissipar aquela cena fugaz. A imagem, porém, não vai embora.
Termino a semana assistindo a “Diários de Motocicleta”, último filme de Walter Salles, baseado nos diários da primeira viagem que Ernesto Guevara realizou pela América Latina com seu amigo Alberto Granado. Ernesto ainda não era “El Che”. Aos 23 anos, vindo da classe média alta de Buenos Aires, o estudante de medicina quis conhecer de perto a América que lia nos livros, montado em uma motocicleta. O que poderia ser apenas um road movie banal, simples repertório de imagens usurpando a “celebridade” de Che Guevara, na verdade apresenta uma narrativa primorosa, construída de modo a suscitar tanto entretenimento quanto denúncia social.
Há uma brusca alteração no ritmo do filme, que permite separá-lo em duas partes. A primeira investe em clichês que beiram ao pastelão, cativando o espectador com o riso certo ocasionado pelos imprevistos de viagem. Cria-se aí a pulsação do gênero comédia-aventura, do leve entretenimento, pontuado pela belíssima fotografia no Pampa e nos Andes.
A inflexão na narrativa ocorre quando a velha motocicleta (chamada “La Poderosa”) enguiça de vez, devido a acidentes de percurso, e quando os dois jovens cruzam a fronteira do Peru. Encontram pela frente mineradores em busca de trabalho, deparam-se com a imensa rede de injustiças tecida desde a invasão dos espanhóis em Machu Picchu e Cuzco, atendem como voluntários no povoado de San Pablo (curioso nome…), onde os doentes estão separados pelo rio Amazonas do resto da população. O clima do filme agora lembra vagamente a de documentário, em que se vê os atores improvisando com a população local. Tal procedimento resulta em algo que mimetiza a própria característica de diário, ou seja, a de registro que mescla realidade e pequenas doses de ficção.
No momento de despedida, Ernesto abraça o amigo e, como se fizesse um curto balanço da viagem, diz: “Quanta injustiça, não?” Alberto permanece calado, não há o que dizer. A imagem daquele menino da última segunda-feira irrompe, mais uma vez, da minha memória. De lá para cá, de San Pablo para São Paulo, da ficção para a realidade latino-americanas, pouco mudou. Como alterar estruturalmente esse quadro se revoluções foram extenuadas e se um voto hoje serve apenas para loteamento de cargo político? No vazio da resposta, saio do cinema, entro no carro e, sem marcha engatada, piso com força, muita força, o inútil acelerador.
Titulo: Diarios nas esquinas
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Crônica
Data de publicação: 3 de maio de 2004
Resumo: “Diarios de Motocicleta” tem narrativa primorosa, construída de modo a suscitar tanto entretenimento quanto denúncia social
Piegas. Este compadecer-se com pisos fortes no acelerador é o reflexo burguês desta sociedade que só vê necessitados por trás dos vidros dos carros e nos textos (frios e racionais) com o dó de quem se julga (ou se desculpa?) incapaz de oferecer um prato de comida, que seja, a quem tem fome. Discurso piegas.
A cena do menino tocou fundo, Socha. Traduziu a amarga vida latino-americana. Nossa vida. Foi o pano de fundo para a análise deste filme sobre parte da história da - igualmente amarga - América Latina. Ou seja, nossa história - do menino, aos salões de arte, de San Pablo a São Paulo…
Socha, Este é um coquetel de sentimentos pelo qual todos já fomos abatidos, o qual infelizmente necessita com frequência de ser exemplificado de maneira clara como neste seu texto. Belas palavras…
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Belos paralelos, belas comparações, denúncia que vai pralém das imagens e das palavras. Pena que a realidade fora das narrativas não seja tão bela.