Crônica por Thiago Mom
28 de julho de 2005
Quando vou escrever sobre um livro, quase sempre apelo ao Google e dou uma olhada nas resenhas sobre ele. Mas é ridículo. É pedante e patético. Por que não falar logo das próprias impressões da leitura, em vez de procurar balizas intelectuais pra saber o que é ou não pertinente especular sobre um romance? Aliás, nem é preciso pesquisar no Google: as balizas vão se instalando na nossa cabeça de qualquer jeito. Por isso tem crítico que, mesmo quando é pego no contrapé sentimental e se emociona com, sei lá, um filme ingênuo mas simpático, vai lá e pinga uma estrela solitária na avaliação - como se essa fosse também a autocrítica do seu comportamento de espectador subitamente envolvido demais.
"Eu sou Charlotte Simmons" (Ed. Rocco), me disseram, andou sendo achincalhado por aí. Mas como assim? - pensei 72 vezes, enquanto lia. Consigam esse livro. É uma facada. Custa em média R$ 65,00. Passe em quatro vezes no cartão, crie um 0800 pró-leitura, saque da conta do Marcos Valério, vá até a livraria e leia uma página por dia: em um ano, dez meses e duas semanas dias você termina. E vai ter valido a pena. No mínimo, você vai descobrir que existem muito mais coisas entre a vida formal e festiva universitária do que julga nossa pobre capacidade de observação.
Tom Wolfe, jornalista americano e autor do clássico "A Fogueira das Vaidades", do não menos impactante "Os Eleitos" e de outros, tem 73 anos mas traduz o espírito dos nascidos de 1980 pra cá com mais propriedade do que qualquer escritor mais novo - e quando digo propriedade entenda, por exemplo, um zoom psicológico perfeito em uma galera tomando gelada, falando besteira e assistindo ESPN numa sala escura. Em pequenas e grandes fatias, aqui e ali, nas 683 páginas você vai identificar sua própria vida e sentir não sopros, mas ventanias de saudosismo. E tudo isso sob o efeito de um energético: sempre que peguei o livro pra ler com sono, à meia-noite, não larguei ele antes das cinco da manhã.
"Eu sou Charlotte Simmons" me lembrou a espirituosidade de Oscar Wilde dissecando a sociedade inglesa do século 19. Só que claro, o romance de Tom Wolfe fala de estudantes americanos de hoje, então sempre vai existir quem leia de maneira implicante, idealista, paranóica, vendo em cada descrição do tipo "o que pensa um universitário fodão no basquete" um desperdício de tinta e de talento: "Por que um escritor tão bom falando de um mundo tão superficial? Ninguém devia gastar tempo com isso!". Por favor, não gastem tempo ouvindo essas pessoas. Mas ah, favor também esquecer que Wolfe votou no Bush na última eleição.
Titulo: Disparado, o livro do ano
Autor: Thiago Mom
Gênero: Crônica
Data de publicação: 28 de julho de 2005
Resumo: Passe em quatro vezes no cartão, crie um 0800 pró-leitura, saque da conta do Marcos Valério, vá até a livraria e leia uma página por dia. Só não deixe de ler “Eu sou Charlotte Simmons”, último romance de Tom Wolfe.
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Valeu a dica, Thiago. Daqui um ano, dez meses e 15 dias te digo o q achei do livro - não q vc queira ouvi-lo…