Crônica por Eduardo Socha
8 de setembro de 2003

Termino o jantar às oito horas e abro o jornal, na expectativa tola de encontrar alguma reportagem que auxilie minha digestão. Evito o caderno de economia, pois sei que meu estômago debilitado não suportaria a queda de 1,6% do PIB no segundo trimestre. Parto então para o segundo caderno, onde se lê uma reportagem sobre o concerto de Antonio Menezes e Menahem Pressler no Cultura Artística. Quando: hoje, segunda-feira, às nove horas. Programa: sonatas para cello e piano, de Beethoven. Antonio Menezes, violoncelista de notável projeção na atualidade, camerista do Beaux Arts Trio, músico cuja extensa discografia inclui o concerto duplo de Brahms sob regência de Karajan, pernambucano que se tornou referência insofismável em seu instrumento (a lista é longa), vai se apresentar dentro de - deixa ver ? 54 minutos com Menahem Pressler (poupo o leitor de sua biografia prodigiosa). E eu aqui, lendo jornal.
Como pude perder isto? Cairia muito bem uma apresentação de Menezes hoje. Minha segunda-feira seria certamente menos segunda-feira… agora é tarde, resta-me apenas o “som do lamento do meu violão”. Mas eis que um súbito impulso - talvez provocado pelas primeiras manifestações da minha digestão (decorrente, aliás, de uma pizza mui desonesta) - traz-me à tona de uma parva esperança. Será mesmo que perdi esse concerto? Fecho rápido o jornal e já estou dentro do carro, nervoso com a procissão lenta dos motoristas na Augusta. Momentos de tensão. Estaciono. Corro até a bilheteria e o relógio marca bondosamente 8:47. Há ingressos ainda, informa o guichê, R$10,00 com carteirinha - preço para meia-hora antes do espetáculo. “Adoro São Paulo. São Paulo, my love”, murmura João Gilberto em minha cabeça. Ganho o dia, minha segunda-feira deixou de ser segunda. Já me dou por satisfeito quando, pouco antes de comprar o ingresso, um casal se aproxima e me oferece um lugar, simplesmente porque “sobrou”. “Você quer?” Como assim, caríssimos? Na maciota, sem pagar? Desconfio, mas a realidade supera a resenha. Então lá estou, segunda-feira às 8:55, gratuitamente instalado na poltrona G-32 do Cultura Artística, aguardando a entrada de Menezes e Pressler. São Paulo, poço vil de injustiças e feiúras cinzentas, cidade putrefata, caótica. Tudo verdade, claro. Entretanto, o mesmo caos trambém comporta seus delírios, oportunidades, encantos. É preciso saber como e onde encontrá-los. A brilhante assertiva de Gilberto Dimenstein continua atual: “gostar de São Paulo não é para iniciantes”. Acertou em cheio.
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Os dois entram. Menezes, de costas para o piano, abraça o cello com destreza e afabilidade única: gesto que revela simbiose apaixonada, troca imperecível no tempo. Fecham-se os olhos; Beethoven surge lentamente nas arquiteturas polifônicas da sonata nº 2, sostenuto e espressivo, pedindo nossa licença para uma breve conversa. Do cello, as notas vêm precisas, limpas como se nascessem de um instrumento temperado, de uma alma resoluta, tanto faz. Menezes evidencia as pontuações do discurso melódico romântico de maneira suave e impressionante. Toca com os olhos fechados (a partitura não lhe diz mais nada); seus calcanhares estão levantados durante toda a execução e seu rosto quer transfigurar a dor das dissonâncias, a paz das cadências perfeitas: sublimação pura. Ali atrás, no piano, uma interpretação luminosa de Pressler define o leito harmônico seguro para este rio caudaloso de música. Pressler, octagenário e de vigor espantoso, joga o corpo para lá e para cá, dança ao sabor das escalas, é caricato, performático, sedutor. Como é bonito de ver e ouvir os dois. Ou melhor, os três. Beethoven tenta nos dizer muita coisa: o eterno na brevidade das notas. Ainda que difícil, a solução aos poucos parece afortunada. Depois, o bis. Um prólogo de Debussy e um trecho de Brahms amenizam sua fala. Pequeno descanso, até porque ninguém é de ferro.
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Fica a vontade de quero mais. Passa-se uma semana e São Paulo atende o desejo. Na segunda-feira seguinte, vou até à Sala São Paulo, desta vez com ingresso comprado antecipadamente (que eu não sou limão de tentar a sorte duas vezes). Programa: concertos para piano e orquestra, dele mesmo, Beethoven, que agora aparece sob as vestes da Orquestra de Câmara de Zurique, na condução de Rudolf Buchbinder. Do alto de seu pedestal sonoro, Beethoven prepara novamente seu falatório. No concerto nº 2, as palavras ainda recebem a moldura classicista de um Haydn ou de um Mozart. Palavras bem-comportadas, cheias de objetividade e controle emocional. Buchbinder põe a mão fria na orquestra e no piano. A explosão romântica só acontece mesmo no concerto nº 3. Quando escreveu essa peça, Beethoven começava a sofrer as primeiras tormentas da surdez. A mão do solista/regente esquenta. Já na abertura, um acorde intenso em dó menor avisa agitação. As curvas dinâmicas entre o grito afobado e o lirismo intimista parecem denotar toda angústia do espírito, que manda a exigência formal pra escanteio. Vem o segundo movimento e com ele o esforço de encontrar alguma tranquilidade no retiro do piano. É quando se sente a dor para o homem e a revolução para a música. Buchbinder ainda tem fôlego para o nº 4: mais uma laje no edifício romântico. Fim de espetáculo, sem bis, sem descanso. Discretamente Beethoven desce do pedestal e se retira, as mãos para trás, a cabeça inclinada para baixo, o passo quieto de caminhante solitário.
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Ganho as ruas dormidas de São Paulo, lembrando-me do jornal da semana anterior, daquela digestão incompleta e agora (talvez) realizada. Após duas segundas em Beethoven, imagino semelhanças entre a personalidade do compositor e esta cidade de tormentas e lirismos: ambas são titânicas, orgulhosas, instáveis. Se João Gilberto nunca disse “Beethoven, my love”, foi só porque lhe faltou o momento certo. Quem sabe, uma segunda-feira certa.
Titulo: Duas segundas em Beethoven
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Crônica
Data de publicação: 8 de setembro de 2003
Resumo: Algumas notas musicais de duas segundas-feiras.
parabéns pelo texto e por extrair de sampa o que ela oferece de bom. obrigado por repartir um pouco conosco!
Excelente retorno, Socha!Parabéns! A vc e a ele…
Tiro certo! Lindeza de texto, dançando e acompanhando os rompantes musicais de Beethoven. E concluo: acho que sou mesmo muito iniciante em São Paulo. :^) Legal, Socha.
Como de costume, palavras orquestradas com primor, Socha. Belíssima re-estréia daPatada!
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É um delírio escutar Beethoven…. e dentre os delírios eu pude está lá, em alguma fila, a cadeira não sei ao certo, mas eu vi o mesmo que você.