Crônica por Paulo Rebelo
3 de outubro de 2003
A rotina é conhecida, resultado de freqüentes noites insones em que o olho simplesmente não quer fechar, nem com esparadrapo.
Cinco horas da manhã. Com todas as cortinas do cafofo fechadas e todas as luzes apagadas, em uma pueril tentativa de enganar o próprio inconsciente, ainda tento acreditar que é noite, que conseguirei dormir algumas poucas horas antes de o mundo começar a girar.
Ledo engano. Eu havia esquecido do fator galo. Como sempre, o galo. O maldito galo da vizinha. Aquele pusilânime sempre inventa de cantar por volta das quatro ou cinco horas da manhã, avisando que em mais um pouco o sol começa a raiar.
O problema é que, além dela mesma, aquela bruxa não tem galinhas no quintal. Ao menos a vizinhança nunca viu. Então, por que criar um galo esquizofrênico?
Foi então que, em uma certa manhã pós-insônia, coloquei uma roupa que não estivesse amassada e inventei que era agrônomo. Fui lá na casa vizinha e pedi para recolher amostras de terra do quintal da bruxa.
Casa grande, porém simples. No quintal havia uma garagem com uma Brasília azulzinha, cheia de ferrugem. Bagulhos espalhados, ferro-velho, plantas, bacias e até um vira-lata dormindo. Como todo bom Super Ranzinza, me senti em casa.
Nada de galinhas. Sequer ninhos ou ovos. Não havia possibilidade de haver galinhas no quintal. Então não deveria haver galo também, talvez fosse em outra casa.
E, quando o agrônomo disfarçado de Super Ranzinza, ou vice-versa, estava para se retirar do quintal com um gostinho de vitória, eis que ele passa. Ele, o anhangá tinhoso, o carcará dos infernos, o capacho de belzebu. O galo. Aquele frango do galo que não tem respeito à insônia dos outros. Em plena rua domiciliar no centro da cidade! É inadmissível.
E foi uma luzida reflexão nissin-miojo (instantânea) que fez o Super Ranzinza ter a brilhante idéia: cortar a cabeça do galo.
Naquele momento, todas as mazelas da insônia sumiram e aquele [meu] corpo oval e achatado foi invadido por uma extasiante alegria.
Infelizmente, um resto de mazela da insônia ainda estava presente e impediu-me de elaborar uma eficiente estratégia, um plano de ataque certeiro, rápido e mortal. Sem uma faca ou serra elétrica por ali, não havia como cortar a cabeça daquela criatura do mal.
Pedir à bruxa uma peixeira emprestada estava fora de cogitação, pois nesse intervalo o apadrinhado de satã poderia se esconder ou, pior ainda, poderia sair do quintal e ir para frente da casa, proteger-se perto da dona. Caso isso acontecesse, a boa ação do Super Ranzinza teria de ser adiada.
Mas, a idéia da peixeira não era de tão mal assim. Afinal, uma única peixeirada seria o suficiente para partir aquele frango em dois. Ou em três. Ou em asterisco.
Não. A boa ação tinha que ser feita naquele momento. Ali estavam, como em um duelo de samurais, os dois guerreiros em olhares enviesados. Super Ranzinza, de cabelo assanhado, sem banho, fedendo, grudento e com aquele bafo de ressaca, com sede de sangue, representava o lado do bem.
E o frango do galo, contudo, não representava o mal -- pois o mal é muito pouco. O capeta de penas representava a soma de todas as sogras do mundo elevada ao quadrado. Ao cubo. À décima-quinta potência.
Sem armas, bastava um ínfimo movimento brusco de qualquer um dos dois para que o duelo tivesse início. Respiração ofegante, olhares atentos. O galo certamente tomaria a iniciativa, pois já deveria ter percebido que estava a um passo da outra vida. E foi ao pensar nessa iniciativa que o Super Ranzinza broxou.
A memória apitou e ele se lembrou do filme Rocky II (1979), em que o Stallone Rambo corre, corre e corre, e não consegue pegar uma galinha com os mãos. Em uma rápida comparação entre Stallone e Super Ranzinza, digamos apenas que eles são ligeiramente diferentes, apesar de ambos começarem com a letra S. De “s”audável.
Uma cena hipotética: o Super correndo atrás do galo para esganá-lo ao redor do quintal, pegando um pedaço de ferro-velho solto por ali, tacando no galo e só acertando o chão, enquanto à bruxa escuta o barulho e vem correndo, gritando, tentando socorrer o maldito galo das garras de um bom samaritano.
A essas alturas, certamente toda a vizinhança estaria em seus terraços olhando o espetáculo, todos gritando, batendo palmas, incentivando, jogando confetes, dando apoio moral ao Super e as suburbas gritando "baixinho gostoso, gordinho sexy, mata esse capeta, mata!!!!".
Mas, como quem sempre vai preso é o ladrão de galinhas, eu hesitei. Imaginei-me sendo levado pelo camburão da PM, com a dona do galo pagando propina aos policiais para fazerem do Super Ranzinza uma galinha, e, mais na frente, aparecendo no Cidade Alerta para contar a verdadeira versão dos fatos e dizendo-se ameaçado de morte pela Associação dos Protetores de Galos Pirados.
E ali se acabava o duelo que nem sequer chegara a começar. Um justo empate. Ao baixar os ombros e desfazer a posição de guerra, retiro-me do ambiente prometendo: I'll be back.
Ao passar pelo portão, a bruxa pergunta se deu tudo certo na recolha das amostras de terra para a pesquisa. Eu indago:
-- Por obséquio, a senhora costuma acordar a que horas?
-- Umas quatro ou cinco da manhã. O Tião me acorda.
-- É, bem cedo, né? Tião é seu esposo?
-- Não, Tião é o meu xodó, aquele galo lindo que estava ali no quintal. Você não viu? Ele é um santo! Nunca perde a hora !!!
-- Não diga…
[ www.rebelo.org ]
Titulo: Duelo do Titãs
Autor: Paulo Rebelo
Gênero: Crônica
Data de publicação: 3 de outubro de 2003
Resumo: O insone e seu adversário
Bad Behavior has blocked 21 access attempts in the last 7 days.
Ridículo…