Era uma vez a efedrina.

Crônica por Marco Toledo
29 de fevereiro de 2004

Efedrina é um alcalóide utilizado no tratamento de problemas respiratórios. Tem ação fisiológica similar à da adrenalina, e diz-se por aí que é uma ótima idéia para marombeiros: ajuda a queimar ao mesmo passo que "dá um gás". Virou um comprimido de uso genérico. Cerveja com efedrina, café com efedrina, sexo com efedrina. Era então um homem chamado efedrina. Resistência.

Somavam ao todo setenta e duas horas sem ou com muito pouco sono. Ao todo, umas 5 horas talvez quem sabe, quem se importa? Solução, efedrina ora pois veja você. Cerveja com odores, sabor sarjeta, o sujeito sem dentes passa e quer o que for, apenas quer. Pedintes.

Foram duas, simultâneas e bastante fortes seguidas de álcool do tipo álcool, fermentados e destilados. Welcome to Saravejo, Augusta St., no fucking number. Então aquela Loca, mais líquidos, agora doces, enquanto Rob Wolfenson falava do Skinhead que achava bonito. Skinhead bonito, mas que porra. Havia uma TV com desenhos animados e ela era grande. Dureza.

Lisa dizia "mas você está bem mesmo?" enquanto eu pensava no cabelo, que cresce o tempo todo e nós só fazemos cortar e jogar fora. Muita gente, muito "mano" pouco espaço vou tomar um ar, como a parte de cima está em pé vou bater um flipper. Vai Flipper, pula, você consegue, filho da puta! Relax.

Então era o Franz, sujeito chato, que servia o café. Ele dizia "você tem cinqüenta centavos pra me dar aí heim opa cara?" Não uma ou duas vezes, mas repetidas, mesa-a-mesa, randômica e incontáveis vezes. Looping.

No meio do caminho, o carro no poste. O motor descansava calmamente no chão enquanto uma das rodas estava do outro lado do mundo. O eixo fora vítima, deseixou-se. Air-bag.

Café da manhã do hotel. Paulinho, que é papai, diz que somos seus filhos e que se continuarmos brigando não iremos mais tomar café da manhã no hotel, gostosinho. Gostosinho é o caralho, penso, mas tudo bem, não dá pra reclamar tem todas as paradas é foda mas que pãozinho duro, heim? Digo que é a Ana quem começou enquanto ela chora, charmosinha e convincente, dizendo "olha ele, papai, olha ele". Nas próximas idas ficaremos com o Gralack, zagueiro do coringão que é nosso segundo papai. Família.

Naquele ônibus confortável, deu-se o encontro. Estava dormindo e deus veio falar comigo. Disse "encontre os outros, pois a palavra será relevada". E então ele disse a palavra. Era esta: **, ** ****** *****?. Eu não entendi no começo, mas agora entendo. Deus é um cara legal. Ele coçava o saco enquanto falava e eu ia dizendo "mas como, porra, veja bem, meu nariz está doendo…" e ele continuava "nada é mais importante que a revelação da palavra". Deus é um cara informal, teimoso e não usa cuecas. Estava com roupas de lã old-fashioned e uma bermuda com estampa barata. Também usava papete. Odeio papete, mas como era deus quem falava, achei melhor dizer nada. Fez uma série de previsões depois de relevar a palavra. Mas eu não lembro de todas, exceto as que se referem ao tempo amanhã. Disse "sol com tempo nublado, brô". Perguntei se ele gostava de churros, porque eu adoro churros. Ele disse "de que merda você está falando, cara, churros?" Eu disse que só estava tentando puxar conversa. No fundo ele me pareceu um cara legal. Crendice.

Na madrugada e sem razão aparente eu me lembrei das maças fuji que descansavam na geladeira. Então eu as comi. Era este o sinal, entende? Eu comi as maças porque fora um sinal de deus. Então tudo começou.


Titulo: Era uma vez a efedrina.

Autor: Marco Toledo

Gênero: Crônica

Data de publicação: 29 de fevereiro de 2004

Resumo:

Efedrina é um alcalóide utilizado no tratamento de problemas respiratórios. Tem ação fisiológica similar à da adrenalina, e diz-se por aí que é uma ótima idéia para marombeiros: ajuda a queimar ao mesmo passo que “dá um gás”. Virou um comprimido de uso genérico. Cerveja com efedrina, café com efedrina, sexo com efedrina. Era então um homem chamado efedrina. Resistência.

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4 Comentários

  1. Mário disse:

    Digressão e ansiedades efedrínicas. Muito bom… o texto! :^) Parabéns!

  2. Ute disse:

    Boa essa tal de efedrina, não?!

  3. PH disse:

    Marco, tem certeza que foi só efedrina?

  4. Alexandre Piccolo disse:

    Hehe, põe efedrina nisso… só pra começar a viagem…

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