Crônica por Eduardo Socha
12 de abril de 2004
Nas fábulas de Esopo, animais davam conselhos aos homens. Hoje, as fábulas do econômes, insistindo em prejudicar o entendimento da ordem econômica atual, substituem animais por entidades sem rosto, algumas quase teologizadas, a ponto de se falar mesmo em um “deus-Mercado”. Nesse panteão, o deus-Mercado possui cartilha doutrinária, código de ética, e arrebanha fiéis mundo afora. Ou bem o sujeito reza a prece do fundamentalismo mercadológico, ou vai plantar figos na Galiléia. Às vezes nem isso, se encontrar pela frente um Mercado mal-humorado e indisposto com plantadores de figo.
Sabemos que o titã Mercado vive em contínua instabilidade emocional. Ora encontra-se “tenso”, “agitado”, “nervoso”, “temeroso”, “em expectativa”, “desconfiado”, ora em “alta”, “de bom humor”. Nunca é bom contraria-lo, pois do contrário o castigo virá sob forma de desemprego, aumento da inflação, alta do risco-país. Se o governante deseja ampliar gastos no sistema de saúde, o Mercado não vê com bons olhos. Diz que aumenta o déficit público, está fora da cartilha; entretanto, quando há aumento de juros (que também aumenta o déficit), não reclama. Pois então, é difícil agradar a divindade.
Já li economista falando em “riscos idiossincráticos nas economias emergentes”, expressão que caberia com mais propriedade num colóquio de psicanálise. Com tanta variação de humor e terrível idiossincrasia, deveríamos deitar o Mercado no divã e enchê-lo de prozac goela abaixo. Quem sabe a divindade se tornaria mais amena.
O problema é que ela escapa rapidamente de qualquer análise. Para tanto, adota o artifício do obscurantismo e cria um jargão, uma língua difusa, incompreensível para qualquer bionte na Terra, mesmo dispondo de uma vasta biblioteca de dicionários. Não falo dos anglicismos swap, hedge, cycle time, spread, data room, cut back, market share - amém! - e outras ofensas que bem poderiam ser traduzidas para nossa fina flor do Lácio. Parece que o idioma local não convém ao Mercado ? e é de se espantar que ainda fale algum português.
Pior mesmo, foi o mostrado no artigo brilhante da professora Walnice Galvão, uma das principais intelectuais do país, que tentou ler a ata do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central, e não entendeu patavina. Lá, esbarrou com as expressões “termos dessazonalizados”, “médias aparadas simétricas” e uma inquietante diferença entre “significativamente inferior” e “expressivamente inferior”. Sem falar em “alavancagem”, “precarização” e no lírico, apaixonado, “modelo de determinação endógena de preços administrados”. Ah, poesia pura…
Voltando à identidade do Mercado, já dizia Maria Conceição Tavares (economista de rara lucidez) que o destemido “tem CIC e RG” e constitui, na verdade, um grupo de 3000 pessoas influentes, ditando o economicamente “certo”. Seu jargão funciona como uma nova cabala, indecifrável para os mortais, que serve antes para ocultar seu real objetivo e que lembra, sem dúvida, aquele bordão do saudoso Chacrinha: “eeeu vim para confundir e não para explicar”. A diferença é que o Velho Guerreiro (alôôôô tenção!!) pelo menos oferecia bacalhau à platéia.
Titulo: Fábulas do economês – o Mercado sem Chacrinha
Autor: Eduardo Socha
Gênero: Crônica
Data de publicação: 12 de abril de 2004
Resumo: O Mercado não dá bacalhau
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Crônica de muita lucidez. Socha, agradeço por trazer àPatada temas que sempre me provocaram. Esse do Mercado Todo Poderoso era um deles. Enfim, só falta falar do outro mercado que também faz cara feia: o de trabalho. :^)