Crônica por Mário Neto
22 de julho de 2004

Depois que poderosos microscópios e cientistas muito aplicados constataram que nos fazem companhia na Terra incontáveis e minúsculos seres vivos chamados de bactérias, fungos, vírus, micróbios, entre outros micro-alguma-coisa, muitos dos fantasmas de antigamente perderam sua força.
Estar com febre ou tosse, por exemplo, deixou de ser uma possessão maligna, um espírito malvado que só existia para nos atazanar, para ser, por exemplo, uma colônia de bactérias — também malvadas — que nos usa para sobreviver e garantir o seu ganha pão. Elas roubam de nós nossos recursos e energia — haja sistema imunológico — para que possam permanecer vivas e continuar crescendo. (Apesar desses bichinhos ganharem fama de maus só por quererem garantir sua sobrevivência às nossas custas, não custa lembrar que roubamos o leitinho das vacas para vender em caixinhas, além de comermos bois sangrentos — que delícia é uma carne mal passada! — em churrascarias enquanto contamos piadas e damos gargalhadas. O que temos contra os bovinos? Bem, voltemos aos bichinhos maus.)
Malvados ou não, o fato é que eles estão aí nos rondando. É bem capaz que na ponta do seu nariz, nesse exato momento, uma centena de bactérias estejam participando de um animado bacanal sem que você dê qualquer bola a elas. Tenha você tomado ou não o melhor banho da sua vida, não há como se livrar desses pequeninos, que se escondem nas mínimas dobrinhas do seu corpo — acredite, você tem várias. Elas voam, serelepes, pelo ar, leves como plumas, e fazem figas para caírem bem em cima de você — ou qualquer outro alimento — no qual poderão se divertir com uma bela refeição. Sem contar que poderão se multiplicar e garantir sua dominação sobre a terra. (Ou você realmente acredita que os homens dominam o mundo? É a isso que chamamos de “rei na barriga” ou de “bela ilusão”.)
Mas se alguém acredita que os fantasmas sumiram após constatarmos a existência desses pequenos bichinhos, esses se enganam. Os fantasmas continuam por aí, tão fortes quanto nunca.
Talvez até não acreditemos mais que uma pessoa com febre esteja endemoniada — ou coisa do gênero. Afinal, são as tais bactérias e vírus que estão na gente aprontando uma festa de arromba sem a nossa licença. (Outro alguém poderia dizer que estão lá porque Deus quis ou não quis, mas isso é papo para outra hora.) O que acontece, no entanto, é que os próprios bichinhos se tornaram nossos fantasmas sem a gente saber.
Só o fato de não podermos vê-los a olho nú — a não ser quando a coisa está realmente feia, como com alguns alimentos lá em casa — já é causa suficiente para uma mini-paranóia: estaremos nós sendo atacados por eles? Qual será o tamanho do exército?
Nós, metidos a espertos, temos nossas armas. Lavamos diversas vezes as mãos, tomamos mil banhos, limpamos a casa centenas de vezes, varremos, varremos mais, usamos aspiradores de pó — que invenção maravilhosa, lembrei dos caça-fantasmas — e vapores d’água para desinfetarmos o ambiente, e por aí vai. Temos também antibióticos para fuzilar esses invasores dentro de nós, tentando torná-los inofensivos.
Mas, mesmo com tudo isso, rezamos quando vamos à praia para não sermos atacados por gangues de colifórmios fecais, que dominam as águas do mar e outros lugares menos paradisíacos. Ficamos aflitos quando um antibiótico não dá conta do recado. Fazemos cara de nojo de alguém que róe unhas — sim, sim, mais uma vez confesso! Enfim, fazemos de tudo para evitar que alguns nos façam mal e que outros nos ajudem. (Lembrei-me de algumas bactérias muito bacanas e iradas: aquelas que comem matéria orgânica morta — ou seja, inclusive o que sobra da gente quando estamos debaixo da terra — e que reciclam o mundo; aquelas que fazem o pão, o iogurte e o álcool, os quais sabemos bem são fundamentais para qualquer ser humano; as bactérias do chulé, que dão mais charme ao pé de qualquer pessoa; e a lista segue.)
Os fantasmas, portanto, não desapareceram. Estão em todos os lugares — até dentro da geladeira, minha cara senhora —, nos assustando quando podem ou simplesmente existindo, sem meter o bedelho em nossas vidas. Porém, assim como qualquer fantasma, há os que são bons e os que são maus. A febre, os queijos e os pães que o digam.
Mário de Souza Neto adora queijos, iogurtes e pães doces ou salgados. Agradece e comemora diariamente pela existência de alguns desses magníficos bichinhos.
Titulo: Fantasmas
Autor: Mário Neto
Gênero: Crônica
Data de publicação: 22 de julho de 2004
Resumo: Sem eles, o que seria de nós?
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Imagem nojenta, hein?!?! Mário.