Fecha a conta e passa a régua

Crônica por Eduardo Socha
11 de abril de 2005

Foi bastante sintomática a declaração do vice-presidente José Alencar, em São Francisco do Sul (SC), dizendo que o melhor lugar para consertar o país era uma mesa de bar agradável. Ou seja, nada daqueles ambientes pasteurizados de Brasília, daquela tecnocracia árida, daquelas negociações complicadas em nome da governabilidade, nada disso contribuiria para a solução dos problemas do país. Nada como colocar todo mundo num boteco de frente para o mar, com chopp no ponto, fritas e pastelzinho; talvez um carteado para quebrar os momentos de impasse, caso não se resolva bulhufas antes da vigésima rodada.

O comentário nem tão irônico de José Alencar acabou revelando muito da cena política atual. É como se o próprio político não acreditasse mais na política tradicional, entendida como o lugar adequado para pôr a casa em ordem. Só para lembrar uma obviedade, sabemos que as discussões e decisões do Congresso não são tomadas no plenário, mas nos corredores, nos celulares, nos cafezinhos que consolidam os laços do fisiologismo e fazem os sambas do meu-querido-quanto-eu-ganho-nessa tocar alto. Política se transformou em balcão particular de negócios e, em muitos casos, uma promissora carreira dentro do loteamento de cargos. A preocupação com as questões públicas, quando existe, tornou-se apenas um meio para manutenção do capital político, e não o fim que deveria orientar toda ação partidária.

Parece que o negócio não é com eles. Pouco importa se alguém ainda morre de mal de Chagas no século XXI ou se é chacinado por um grupo de extermínio. Para Severino e para a esquadra política que ele representa, importa mesmo o aumento de vencimentos. Encontrando brechas constitucionais, batalhando aqui, fazendo acordos ali, finalmente conseguiram, e você paga a conta. O problema é que, como já foi dito por aí, antes essa prática se realizava falando baixo, com luvas de pelica e com algum embaraço. Hoje, sobra descaramento. E você é um baita chato de galocha se quiser falar em transformação política.

Por tudo isso, concordo com o vice-presidente Alencar de que não há lugar melhor para consertar o país do que uma mesa de bar. Com as decisões oficializadas em botecos, quem sabe a coisa não melhoraria um pouco. Afinal, se tantos brasileiros resolvem diariamente os problemas da nação entre uma cachaça e outra, a classe política poderia seguir o exemplo.

Digo por experiência. Pouco tempo atrás, sentamos numa mesa de bar eu e mais uns cinco ilustres representantes do empresariado e do meio artístico (nenhum político, infelizmente). Apesar daquele choque inicial entre as visões de mundo, o chopp foi cimentando o papo. Lá pela décima rodada, percebi que tínhamos diagnosticado praticamente todos problemas da nação, e dali para as soluções definitivas seria um pulo. Não foi fácil. E, não bastasse aquele esforço todo, ainda tivemos que pagar a conta no final.


Titulo: Fecha a conta e passa a régua

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Crônica

Data de publicação: 11 de abril de 2005

Resumo:

Sobre uma declaração de que o “melhor lugar para consertar o Brasil é mesa de bar”

4 Comentários

  1. Mário disse:

    Fina ironia, belo texto.

  2. Alexandre Piccolo disse:

    é, cada povo tem os políticos que elege… e traz mais uma gelada e bolinho de bacalhau…

  3. Thiago MP disse:

    ups!, saiu um erro ali.

  4. Thiago MP disse:

    Luvas de pelica e algum embaraço” foi foi do cacete.

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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